quarta-feira, 29 de março de 2017

“Pronúncia do Norte”

Nascem sonhos durante o sono que “só visto”, 
quer dizer: 
- são mesmo sonhos, sem pitada de verdade. 
Os sonhos 
que surgem do nada, 
dependem das memórias que guardamos 
e  os sonhos trazem à luz do dia 
(neste caso, à “luz” da noite…). 
Guardamos memórias, 
é verdade, 
e sonhos que são autênticos sonhos, 
como ganhar um grande prémio  no euromilhões!
Na noite passada, 
de tantas rosas me passarem pelas vistas, 
tive um sonho lindo, 
lindo de sonhar 
– tão lindo que, 
quando acordei 
dentro dele, 
estava preso num abraço inteiro...
em que nada fica(va) de fora... 
(De beijos com sabor a “flor do jasmim (…),
“ à Clarck Gable e Vivian Leight”, 
silêncio absoluto).
Um abraço 
assim 
só pode ter 
pronúncia do Norte”! 
Por mais voltas que dê à "moleirinha" 
não encontro a Sul, Este ou Oeste 
outro sonho com este perfume, 
que era autêntico 
- juro que era. 
Nada de Chanel, talvez Je Reviens, a fragância dos meus vinte anos….
Há sonhos 
que nem sonhados 
são/foram “reais”!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Cimbalino à moda do Porto

Mesmo por cima da minha cabeça, a quilómetros de altura, uns quantos aviões, diariamente, insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio" da provocação  dos meus sonhos: Açores e Maputo são os  "próximos destinos",  mas ninguém os adivinha. Como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço,  dedo grande no ar...
... O melhor é embarcar num "expresso"  e  sair no Porto. Tenho prometido um "cimbalino" para quando me der jeito a viagem.

(Adaptação de uma croniqueta publicada em outubro  de 2012)

segunda-feira, 20 de março de 2017

Uma flor - uma bela flor

Determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela.
Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 19 de março de 2017

Quando sorrir é o melhor disfarce

Fui a uma  consulta de cardiologia.
O médico que me recebeu era simpático e  competente - estou  certo disso...
Não apresento queixas, mesmo assim entendeu que o colesterol precisava de uma ajudinha para vir por aí abaixo na escala dos valores que considera ideais para quem tem problemas cardíacos, como é o meu caso. Vai daí, alterou-me a medicação e foi explicando, tintim por tintim, como serão úteis as diversas substâncias que compõem os novos comprimidos, possivelmente minúsculos, como eram os anteriores.
Fixo a posologia, mas quando percorre caminhos enviesados para o meu entendimento, limito-me a ouvir “palavrões” do estilo: Rosuvastantina, Ezetimiba, Perindopril
Continuo “sem fala”. 
- “Percebeu?”, perguntou - quer que lhe responda com um sim, não, ou talvez, e eu sorrio, que é a melhor das respostas quando se é leigo no assunto. Acho que todos nós, os doentes, e mesmo aqueles que o não são, devemos "responder" ao médico com um sorriso. O doutor não se obriga a grandes explicações, se dissermos “não, não percebi patavina”, ou então, “sim, senhor doutor, percebi” , ele sabe que estamos (quase sempre) a mentir. Portanto, "sorrir amarelo" é uma boa resposta (se fosse verde, era sinal de que tínhamos percebido; vermelho, seria o mesmo que dizer “troque isso por miúdos"...).
Um "sorriso colorido" é, pois,  a salvação de quem está perante alguém que sabe mais do que nós sobre qualquer matéria, a não ser que estejamos numa sala de aula, onde o mestre tem por missão ensinar e o aluno aprender...

terça-feira, 14 de março de 2017

Nas asas do sonho, a caminho do Piódão

No dia 31 de Março de 2009 fiz publicar no "Correio da Beira Serra" (http://www.correiodabeiraserra.com/nas-asas-do-sonho-a-caminho-do-piodao/)  esta croniqueta, que volta à luz do dia depois de alguns acertos; os caminhos estão bem melhores e o Piódão ganhou nova alma depois das obras de requalificação. O texto original continua fiel ao "convite" que fiz  à "Lena" - era, é, e continua a ser uma amiga que muito prezo...
...E como a Mata da Margaraça comemora 35 anos da Área Protegida da Serra do Açor,   o convite, desta vez,  inclui um chá da carqueja da "minha" serra...

“Lena”:
Há dias lembrei-te as férias que Agosto coloca no passaporte; agora sugiro que vás para fora… cá dentro!
Como o vai/vem das ondas do mar cansa alguns sentidos, e a “tua” serra tem as vertentes pouco íngremes, convidei-te, se bem te lembras, para uma visita ao Piódão, que fica logo ali, do outro lado da “minha” serra.
Se decidires aceitar o convite, ficam garantidos horizontes fascinantes, para lá de todos os montes, precipícios de meter medo e, bem lá no fundo, aldeias inteiras que nem imaginas com vida – mas ela existe, e as pessoas sobrevivem às custas daquilo que a terra dá e pouco mais…
Aconselho o percurso mais curto; se vieres desses lados, de cima, entra por uma das” Portas do Açor”, em Coja, ou pela “outra Porta", no Barril de Alva; segue em frente e fica atenta às  placas que indicam Benfeita; segues… segues… segues e logo encontras a pitoresca Benfeita. Continua até à "Fraga da Pena" - visita obrigatória. A seguir, Pardieiros. Faz uma pausa e vai "bisbilhotar" o artesanato - compra uma colher de pau do tamanho que te der mais jeito transportar,  e prossegue a viagem até à Mata Nacional  da Margaraça - mais uma paragem obrigatória. Com sorte, talvez encontres o Nuno, responsável pelas visitas guiadas; simpático, o Nuno é o cicerone da Mata, muito qualificado para o efeito. A seguir, Monte Frio, lá no alto. O Piódão é para “este lado”, para a direita...
Se vieres com sede de água fresca, a meio da viagem tens a fonte do “Pião”; da mão fazes concha, e bebes até doer a garganta, porque a água chega gelada ( ou quase…).
Com a sensibilidade à flor da pele, já deste como boa a minha sugestão, e ainda não chegaste ao alto do Piódão, falta pouco…
Não te apresses … parece que te deu uma “coisa”: num segundo ficas com o olhar preso naquele amontoado de casas escuras, muito juntinhas – parecem uma só, com muitas dependências!
Pára e olha, com os olhos da alma...
Então, não dizia? Ficaste sem palavras perante o panorama incomensurável que vais guardar para todo o sempre no arquivo da memória!
Antes de desceres, deves perfilar-te perante a lembrança dos passos de Miguel Torga, que por ali andou e aí se “despediu de Portugal”, “com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada…”. A “pedra bruta”, com a frase completa, está mesmo aí, à tua frente, depois daquelas urzes, vês?
Continua a viagem devagar; se decidires pernoitar na Pousada do Inatel, garanto o silêncio dos montes, a gentileza e o profissionalismo do pessoal.
Finalmente, Piódão!
Repara no casario com o xisto à vista, exceto a Igreja - o monumento tem o branco de todas as purezas, como  o ar que respiras...  
A partir daqui, não te conduzo os passos, mas vai por mim dar uma palavrinha ao senhor Lourenço, que tem uma venda com o seu nome. Mas só uma palavrinha; se for com a tua cara (é que vai mesmo, sendo tu como és…) não te larga com estórias – mais de mil! - que diz ter escritas em setenta agendas! Já agora, dá um salto ao “Solar dos Pachecos” e prova um dos deliciosos licores que tens à disposição, mas aquilo trepa, se abusares, já sabes...
No regresso, sugiro que sigas em direção a Vide. É mais longe, mas compensa.
A meio caminho, encontras Chãs d’ Égua. Vai com tempo para ficares largos minutos na descoberta de vestígios de Arte Rupestre. Mais à frente, Foz d’Égua - casas, pontes, uma delas suspensa, única. Tudo parece arrumado no tempo, à exceção das estradas e caminhos por onde se chega mais rápido – estradas e caminhos que a população usou para fugir das leiras, das encostas, dos animais que parece nunca terem existido, e das pedras, das pedras com as quais se construíram casas… cobertas de pedras.
Para voltares basta seguires as “placas”, mas se trouxeres o GPS, nem delas precisas!
Convencida?

quinta-feira, 9 de março de 2017

O "Manel" do talho

O vendedor de automóveis mostrava um dos modelos do catálogo, com ele à mão de semear…
- Pode entrar, espreite, é extramente cómodo.
- Não vale a pena, estou muito bem servido com o meu Toyota…
- Isso é um carro que nunca mais acaba!
Concordei. Mais palavra, menos palavra, e chegámos à despedida, não sem antes ser presenteado com todos os contatos do meu ocasional parceiro de conversa -“se quiser dar uma volta…. não, não obrigado… “.
- Bom, tenho de ir -foi um prazer conhecê-lo. Até chegar à Lousã  ainda  vou visitar alguns clientes.
- Mora na Lousã?
- Moro. Não sou de lá, mas é como se fosse – casei lá.
- Sabe quem é o “Manel” do talho?
- Claro, quem não conhece o senhor “Manel”? É uma excelente pessoa, tem feito bem a muita gente. É uma figura muito estimada na Lousã. Esteve no clube, na Santa Casa...
O vendedor de automóveis ficou sem pressas e folheou memórias, com o “Manel” do Talho dentro delas…
- Também conhece o senhor “Manel”?
- Conheço, somos amigos. Tem toda a razão, é como diz - uma excelente pessoa. Aliás, toda família é excelente. Além de amigos, somos compadres….
O vendedor de automóveis, a esta hora, já deve ter chegado a casa …

quarta-feira, 8 de março de 2017

Torradinhas com manteiga


...por ser hoje e todos os outros dias 
o "dia universal de todas as mulheres"
*
Madrugou o dia tão sereno como a alma de qualquer justo. 
Abri as janelas  e deixei entrar o sol - está tudo  perfeito, até o mundinho minúsculo, que faço meu, como se fosse único. E é, só meu e único!
O galo dos vizinhos desperta a manhã silenciosa e faz dela, 
da manhã silenciosa,
um tempo perfeito - o canto do galo é perfeito. 
...Mais do que perfeito, sem silêcncios, seria a voz dela ao pequeno almoço a dois, com torradinhas morenas barradas  com manteiga, servidas  em sorrisos de Lalique.
Sem ela, 
a voz, 
restam as torradinhas morenas barradas com manteiga.