domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio: Bayete, irmão!


Acordei cedo, como se fosse segunda feira. Na dúvida,confirmei no "Lumia"  - é domingo!
Já agora, pensei, vou saber das notícias do país:
- Morreu  Eusébio!
Se havia vontade de voltar ao sono, esqueci. Desliguei a luz, aconcheguei-me nos lençóis, e por aí fiquei, às voltas  com as minhas memórias de mufana, em Lourenço Marques, residente no bairro da Malhangalene.
Mufana sim, pontapés na bola, à fugida, junto à Praça de Touros; mais toques na bola no  campo do 1º de Maio, perto de casa, que equipava de vermelho.
Um dia descobri o melhor modo de ir para o outro lado da cidade, onde o Sport Lourenço Marques e Benfica tinha o seu campo relvado, com pista de ciclismo à volta.!
Fui,  deram-me umas botas com travessas,  calções quase brancos e uma camisola de um vermelho desbotado.A camisola, mesmo assim, tinha o símbolo da águia...
No fim do treino, pediram-me para voltar no  seguinte.
Aspirantes  à equipa de júniores, mais de sessenta!
Ao segundo dia de testes e experiências: ("jogas em  que lugar"?; "vais mas é  ali para trás, para defesa"; " em cima dele, vai lá, não passa, não passa"; "ó puto, cobre em cima, encosta-o à linha..." ) fui um dos escolhidos para  ser inscrito no clube.
Por engano, deixei de ser Ramos, e passei a ter "Santos" no nome! Coisas, miudezas, enfim - o que eu queria mesmo era jogar a  sério com a camisola do meu Benfica!
Nesse tempo já o Eusébio tinha fama.
Lembro-me de  ter assistido aos jogos da equipa brasileira Ferroviária de Araraquara  com a  seleção de Moçambique, seleção dos Naturais de Moçambique e Sporting de Lourenço Marques. O Eusébio jogou em todas as formações..
No primeiro jogo, um jogador brasileiro surpreendeu com uma finta "nunca vista": corria com a bola, quando o adversário se aproximava, fazia com que esta lhe passasse por cima!
No jogo seguinte, dias depois, o Eusébio brindou o público com jogadas semelhantes, fintas doidas, tiros fora da área...
Nesse tempo, às vezes, a equipa de júniores do meu Benfica, à noite,  ia treinar com a equipa do Sporting, no seu campo. O mais certo foi o  Eusébio ter feito de mim "gato sapato" quando, como defesa direita, procurava suster as suas cavalgadas,  a mando do treinador e com o brio que se exigia a um atleta do Benfica!...
As minhas memórias, agora, estão tão vivas e presentes, como se tudo tivesse acontecido ontem.
"Tenho" quinze, dezasseis anos...

Esta manhã, sou um dos muitos portugueses pelo nascimento,  moçambicano pelo amor à  Pátria de adoção, que deixou correr as lágrimas ao saber que...
- O Eusébio morreu!
Bayete, irmão!