terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Como se fossem dois adolescentes



A meio da tarde, no bar, havia mesas livres.
O casal entrou, escolheu uma delas, olharam os dois em redor e, já instalados, pediram que lhe servisse duas bebidas.
Os olhares do casal perdiam-se pelas paredes, onde estavam expostas pinturas do Wild de Wildt, Rui Monteiro e Alberto Péssimo; a música ambiente aconchegava o sossego do momento e o tom das vozes era suave.
Tocou um telemóvel, a senhora atendeu, levantou apenas um pouco a voz e falou em francês, expedita, de forma alegre. Repetiu por três vezes merci, e continuou, veloz, na articulação das palavras …
O cavalheiro, entretanto, inquire sobre o espaço: é público, não? Respondo afirmativamente. Sabe, acrescenta, como tem um estilo completamente diferente do habitual, a minha esposa deduziu que fosse um “clube privado”. Em traços largos, explico que o comércio de bebidas era um pretexto para algumas atividades culturais - a exposição que tinham à sua frente era um exemplo disso mesmo.
Terminada a conversa, foi a vez da senhora parabenizar os autores das obras expostas e quem tivera o arrojo de colocar de pé o espaço como se apresenta.
Agradeci a generosidade da gentileza das palavras.
Pergunto se estão de férias por estas paragens. Responde a senhora: de férias já estamos há imenso tempo, somos reformados, e viemos de Leiria passar uns dias a esta região, que desconhecíamos em absoluto, pernoitamos na Pousada do Convento do Desagravo e durante o dia damos uns passeios por aí. É muito lindo, tudo aqui à volta, a serra, tudo!
O encantamento do olhar transmitia alegria, satisfação, prazer, felicidade na forma mais pura – que sei eu desses sublimes sentimentos?
Sempre de sorriso nos lábios, desenhados num rosto de enorme beleza, disse ao que vieram em concreto, desvendou o segredo, enquanto o marido, talvez um pouco envergonhado, olhava terno e meigo a “jovem” e bonita esposa: faço hoje oitenta anos, e o meu marido presenteou-me com este magnífico passeio.
Oitenta?
Não, não imaginava aquela figura esbelta, meã na altura e aspeto prazenteiro com uma mão cheia de “viçosas primaveras”, muito próxima do centenário que, acrescentei, por certo irá comemorar…
Pedi licença, fui à florista Clara, logo na esquina, comprei uma rosa (que não paguei, porque a Clara conhece de longe o meu “vício” por flores e partilha a mesma sensibilidade,  volta não volta tem destas delicadezas…), regressei e com o meu melhor sorriso ofereci-a à bonita senhora – apenas uma lembrança com que procurei honrar o seu aniversário e o amor do casal.
… Fiquei com a sensação de que a rosa vermelha “ganhou vida própria e um rosto”: “um dos olhinhos sorriu, atirou-me uma piscadela” e eu fiquei a ver o casal, de mão dada, rua acima, como se fossem dois adolescentes apaixonados.
A conta das bebidas ficou por conta da casa.














RiTuAL Bar
 Oliveira do Hospital junho/2007


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

As maravilhosas capas dos disco de vinil

Passei por uma loja/armazém que vende  mobiliário holandês usado (estantes, mesas, cadeiras, cómodas...), material para decoração de interiores, e uma parafernália de coisas e coisinhas muito do agrado de um público específico. E há uma secção de discos de vinil, novos e usados, onde me esqueço do tempo -  mais pela atenção que dispenso às capas do que ao conteúdo. Toda a informação está escrita em holandês, e não há  gira discos para testarmos os gostos; sorte a minha quando busco os clássicos, não que seja consumidor constante nem grande conhecedor - gosto de  ouvir "alguma coisa"  de Tschaikoswski, Mozart, Verdi...  - enfim, tenho os meus momentos para entrar na onda dos meus temas favoritos, mas não faço saltar a agulha para silenciar as peças  que pouco dizem à minha sensibilidade de "ouvinte ignorante" - ouço  tudo com atenção e respeito, como se entrasse na catedral de Colónia...
Desta vez encontrei este LP, novo, sem um risco! A capa é fabulosa e não hesitei; comprei-o pela módica quantia de um euro!

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Saúde, dinheiro e amor...

Desejo que o "Pai Natal" deixe no sapatinho de todos nós
toneladas de 
"SAÚDE, DINHEIRO E AMOR"
- Com cheirinho a naftalina, 
para quem é do tempo de antigas memórias, 
musiquinha a condizer -

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Dolce far niente


Um dia de outono cinzento pede o calor da lareira e um dolce far niente
... Posso ler... olhar a tv, clicar o facebook, blogar, alinhavar o lume, bebericar medronheira, mastigar figos secos, pensar, vadiar o espírito (memórias do professor Agostinho da Silva)...
Digo de mim para mim, em silêncio: dia com tempo triste, mas nada chato, ocupo a mente, o corpo pede  descanso, descanso-o - mereço o que tenho neste dolce far niente., (...) deste modo fica mais fácil transformar cada dia da vida em uma pequena mas valiosa obra de arte (...). Pois...
Na falta de Moet Chandon, fico-me pela  medronheira...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Tango: no es lo que quieres, pero ....

Invento-te nos silêncios das horas incertas.
Posso não te querer,
mas quero-te muito bem - tanto, tanto como se te quisesse
a todas as horas,
sem silêncios - bastava....
-
(...) "Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além"
-
 Mário de Sá Carneiro
Excerto do poema "Quase"

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Com um pastor "assim"...

Subi a rua e fui ao Café Portugal apostar coisa pouca no “euromilhões”.
-Boas tardes! – disse eu à chegada.
-Boas tardes, amigo Carlos! – respondeu o Sr. Carlos, dono do café.
Àquela hora, encostados ao balcão, estavam num colóquio dois presumíveis clientes; um, deu dois passos, estendeu-me a mão e foi simpático e gentil no cumprimento. O outro, olhou de soslaio, e por aí se ficou, disposto a voltar à conversa, entretanto interrompida.
Reconheci a figura pelo porte, mas como o cavalheiro nunca me foi apresentado, não dei importância à falta do institucional e politicamente correto “boa tarde”, embora entenda que um autarca, deve conhecer as "ovelhas do seu rebanho”, repartindo os mimos, sejam elas, as "ovelhas", de cor branca, preta, vermelha ou laranja!...Com um “pastor” assim, longe da simpatia, é natural que algumas andem tresmalhadas…
Paguei a aposta do jogo, dei meia volta, saí calado, e só parei na “Silmoda” - está na montra um “pólo” vermelho que trago “atravessado na carteira”; infelizmente a “Lacoste”  não foi de férias e quanto a saldos …
Se me sair o “euromilhões”, compro a peça de roupa e volto ao Café com ela vestida à hora da tertúlia. Sempre quero ver se o “ pastor” me reconhece pela cor do “pólo”, que é vermelho.
-
Texto adaptado  de uma corniqueta publicada em agosto de 2006

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Prazeres implícitos

Há dias em que baralho as ideias de tal forma que me obrigo a reflexão mais ou menos minuciosa, muito ao estilo de um seguidor de Buda…
O mundo, na verdade, não fica de “pernas para o ar” pelo simples facto de um mortal assumir que em certas horas se confunde…
Depois do almoço, vou ao café. Enquanto espero pela bica passo a vista pelo jornal à disposição dos fregueses, leio os desenhos dos títulos, faço pausa circunstancial nas fotografias, viro as páginas sem atenção aos “classificados” – entretanto, tenho a chávena à minha frente…
Um dia destes, o jornal ficou como estava, com uma das páginas dos anúncios aos olhos de quem vê. E li que determinada senhora oferece os seus préstimos para acalmar o stress dos leitores. Em meia dúzia de linhas apresenta o seu currículo físico e deixa adivinhar nos três pontos do final do texto prazeres implícitos - o normal, com o pormenor acrescido de, dizia ela, ter sido namorada de um futebolista!
No reino da publicidade há palavras “plebeias” que empurram o (possível) cliente para o consumo de determinado produto; no caso, o facto (?) da referida dama ter namorado com um fulano que ganha a vida ao chuto (numa bola), acrescenta mais valia ao “artigo” do anúncio – terá pensado a autora.
Apesar de óbvia, a informação peca pela escassez de pormenores e de um  título a condizer:
- “Fulana de tal, ex namorada do futebolista Y, assume-se como prostituta”.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Jovial e cómodo nas memórias




São dois os artistas, dois os instrumentos: uma Fender e uma Ovation que se completam como amantes apaixonados; à suavidade das cordas de nylon sobrepõe-se o timbre do aço no solo de peças musicais, tão clássicas quanto a minha mente consegue catalogar no tempo: "Guitar Tango", "Apache", "The Savage"... e mais e mais!!!
Os " Shadows" foram e são o meu grupo musical de eleição,  deles guardo "quase tudo", desde os primórdios dos seus verdes anos à década de oitenta - outra época de ouro nos arranjos de "Themes & Dreams", por exemplo.
No meu "universo", de teto negro e paredes claras, onde repousam quadros do Wil de Wildt, Frenk Steffens e Rui Monteiro, iluminados por luz branca e directa, o som que me chega aos ouvidos vem do dedilhar das cordas das violas. Por sorte da imaginação fértil, o Hank Marvin faz  com que me sinta jovial  e cómodo nas memórias...













terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O homem do realejo





Enquanto esperava  o cortejo
o homem do realejo
trocava olhares misturados com sorrisos
com a boneca das pernas compridas, grandes, enormes.
Veio a turba a reboque das sardinhas assadas,
dos couratos e pasteis,
do bucho e da chanfana.
A boneca ganhou vida - cresceu em altura,
o realejo tocou,
o homem sorriu;
o povo sorriu,
o presidente sorriu – todos os presidentes sorriram,
os confrades sorriram,
o emplastro sorriu,
os homens da segurança, não.
A boneca desceu das pernas altas, o homem pousou a mão no realejo - tinha passado o cortejo!













 Publicado em junho/2011 - visita do Presidente da República a Arganil

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Rosa cor de rosa



Gosto de todas as rosas, mas aprecio sobremaneira o tom vermelho escuro das que crescem no meu quintal no tempo próprio, não agora, nascem tardias, quase a medo, não vá a geada uma noite destas reduzi-las à lembrança da Primavera, o que acontecerá mais cedo ou mais tarde…
Um dia destes  surrupiei uma dessas rosas de outono com a intenção de a colocar numa jarra, como sempre faço – um luxo a que me dedico com inusitado prazer.
Dada a fragilidade das pétalas, coloquei-a com muito cuidado no banco do "pendura" e fiz-me à estrada sob chuva forte. Os pensamentos teriam pouco sentido porque concentrava toda a atenção no tráfego, apesar de pouco intenso.
Na "estrada real", próximo do "sítio do costume", disse de mim para mim: "com este tempo, não há rameira que aguente a espera de eventuais interessados na aquisição dos seus serviços"!
Puro engano. Depois de uma curva, na berma da estrada, uma figura feminina, esguia, de minissaia, acoitava-se sob um guarda-chuva. Do outro lado, estava outra, sujeita ao mesmo desconforto. Travei suavemente, o carro continuou a marcha mais devagar, e ao passar por aquela que estava estática junto à minha faixa de rodagem, cruzámos os olhares por breves segundos – "mais um que se limitou a olhar ", terá pensado  a senhora esguia vestida com uma minissaia.
Embora frágeis, as pétalas da minha rosa cor de rosa mantiveram-se harmoniosamente juntas.
-
Resumo de uma croniqueta publicada em 2009

domingo, 6 de dezembro de 2015

À boleia - dedo grande no ar

Por cima da minha cabeça, mas a muitos metros de altura, uns quantos aviões, diariamente, insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio" da provocação dos meus sonhos: Açores e Maputo são os "próximos destinos", mas ninguém os adivinha, e como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço, dedo grande no ar..

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Brinquedo de corcódea


Era uma quinta enorme, com terreno de cultivo bordejado de macieiras. E tinha uma casa de arrumos onde guardava as minhas construções de corcódea; a última foi uma miniatura de um carro de bois ( o transporte da época para o renovo da quinta, onde se "dava de tudo", como se fala por aqui...).
Em fevereiro de um ano, as terras estavam de pousio e eu também, sem grandes quereres nos meus onze anos, mas fui de livre vontade até onde o navio me deixou, quase um mês depois do adeus a Lisboa.
Lourenço Marques era uma cidade linda, tão linda que me prendeu nos seus encantos - ainda morro de amores por ela!
Um dia, homem feito, regressei ao meu sítio e voltei à quinta, de visita, para procurar o meu carrinho de corcódea, com duas rodas minúsculas e duas figurinhas que em nada se assemalhavam a animais de carga, sem chifres - lembro-me bem do feitio da minha "escultura"!
Tinha a certeza de que a deixara numa prateleira, ao alcance da minha mão... mas a prateleira estava vazia!
Da casa restam duas meias paredes e, aberta numa delas, a prateleira "guarda a alma" do meu brinquedo... 
março, 2009

- Ai credo !....

(...) Seis horas numa sala de espera, dão para imensa coisa: ler o jornal, partes de um livro, ouvir as conversas dos vizinhos, ou passear o olhar pelos rostos de quem está por ali… à espera. Aproveitei o tempo consoante o cansaço que proporciona a incómoda cadeira; se me concentrava na leitura, de quando em vez, ficava em alvoroço com uma voz de mulher que vinha do altifalante. Era timbrada, e os decibéis, acima da média para o local, preenchiam “violentamente” o espaço.
Ao meu lado, uma senhora, entrada na idade, “ passava pelas brasas”. Tantas vezes se sentiu incomodada com as chamadas, do estilo “António Francisco Simões, sala cinco” (aquilo era rápido, questão de segundos!), entre tremores e um ressonar “simpático”, a dado momento, talvez por estar a meio de um sonho bonito, deu um salto na cadeira e soltou um sonoro desabafo:
-“Ai credo, porra que me assustei”!
Nessa altura estava  preso à leitura das últimas sobre o “meu” Benfica, depois de ter mergulhado numa crónica do Miguel Esteves Cardoso.
-“Carlos Alberto Ramos, gabinete dois” – chegou a minha vez!
Eram três da tarde.

Posso ajudar?

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que "conheci" Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses.
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante mais afastada do balcão. E ela vinha, apesar de se ter apercebido da marosca, com um sorriso maroto.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a "ajuda" não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, da música em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem e eu teria saído do canto da minha timidez ... 
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar!
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fim de festa



Depois de uma relação mal resolvida, em 1967,  raivinha miúda, felizmente passageira e sem efeitos colaterais...

*
Queria ver-te nua
e da alma despida
na rua,
perdida...
Em gozos celestiais,
êxtases de loucuras
e orgias de entontecer,
banais seriam as tuas graças
- desventuras talvez!
E eu, rosto enxuto,
braços cruzados,
a ver morrer aos poucos,
de vez,
a alma,
o corpo,
a tua imagem,
sem coragem
de oscular em fim de festa
o pouco que de ti resta....

Gargalhar, rir e sorrir faz bem à saúde

Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas unidos, juntinhos, como os pinguins no Ártico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar - sobram algumas graças do Fernando Mendes no “Preço Certo”,  e no "5 p'ra meia noite", e isso é preocupante.
Não somos um povo alegre, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), de sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. Agora perdi-o de vista. 
O jeitinho para ator é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! –, mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é ótimo.
Perante o que se lê e vê nos canais da TV, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja para ficar ao corrente das (suas) gargalhadas.
***

"Três alentejanos reunidos tentam encontrar uma nova maneira de passar o
tempo.
Diz um: – Oh compadre, já chega de sueca e dominó. Tou farto disto!!
Diz outro: – Atão e se fossemos jogar golfi ?
Pergunta o primeiro: – Atão, oh! compadri, com’é quisso se joga ?
- É c’um pau, umas bolas e um buraco.
Responde o outro : – Atão tá beim ; ê cá dou o pau.
Diz o segundo: – Prontos ê cá dou as bolas.
Responde o terceiro : – Cumpadres, ê cá nã jogo."




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Lulu, a raposa

Publicado no "Correio da Beira Serra" em 2008





La Fontaine não teria desdenhado juntar às suas fábulas a estória da raposinha que vem todos os dias – e à hora (quase) certa, mais minuto menos minuto! – “jantar” ao restaurante “Vale dos Amores”, perto de Fiais, na freguesia de Ervedal da Beira. Se os “animais falassem”, seria curioso conhecer de “viva voz” o que vai na cabeça da raposinha para se entregar de “corpo e alma” à gentileza da sua presença, que já se tornou um hábito.O proprietário do restaurante, Humberto Cerejeira, conta como tudo começou:
-“ Eu e a minha mulher, há uns quatro meses, começámos a notar que o saco do lixo aparecia rasgado. Pensávamos que era obra de algum cão que andasse por aí, de noite, mas um dia a minha esposa viu a raposa perto e não fez nada para a assustar; então, o animal foi aparecendo, dávamos restos de carne, e ela acostumou-se a nós”.
O Humberto, carinhosamente, batizou-a de “Lulu”.
No dia em que a equipa de reportagem do Correio da Beira Serra se deslocou ao Vale dos Amores, já a tarde caminhava para a noite, o restaurante tinha a esplanada bem composta de clientes, alguns deles, conhecedores da notícia, eram repetentes. A primeira surtida da raposinha tinha acontecido minutos antes, mas ficou a promessa do Humberto que “… não tarda por aí, é uma questão de esperarem um pouco mais, porque ela pega no pedaço de carne e vai esconder, nunca come perto de nós…”. Na verdade, daí a nada, os clientes mais atentos viram-na chegar; fez uma pausa a uns metros de distância, e como ninguém lhe fez negaças, aproximou-se devagar, orelhas levantadas e o olhar atento ao mais pequeno movimento.
-“Lulu”, toma – diz o Humberto – e o animal, sem pressas, aproximou-se por entre as mesas, abocanhou o seu quinhão de carne, e voltou, nas calmas, pelo mesmo caminho. A cena repetiu-se várias vezes, mesmo quando a ração era entregue por uma criança. Por vezes ficava parada perto da esplanada, como se esperasse que o “padrinho” a “convidasse” a entrar – só a ele e a mais ninguém a raposinha “respondia”. Numa floreira alta que fica perto, o Humberto escondeu um pedaço de carne; ela aproximou-se, um pequeno salto, farejou e levou o “petisco”!
-"Não pensem que a “Lulu” come de tudo, tem o gosto refinado – comenta o Humberto – pão, só se tiver manteiga, não gosta de sardinhas assadas, prefere carne, mas do que ela gosta mais é de camarão”!
O animal é, como se calcula, uma atração no restaurante. Como mais vale prevenir do que remediar, foi desparasitada e já “…falei com o médico veterinário para ver se a conseguimos vacinar e colocar-lhe uma coleira”, acrescenta o Humberto que, a talhe de foice, sempre vai passando palavra aos vizinhos – não vá alguém ter a infeliz ideia de fazer uma espera à “Lulu, de caçadeira na mão…
(...) O “padrinho” tornou-se responsável por ela, cativou-a, como na estória do “Principezinho”, de Saint-Exupéry.
-“ Lulu, toma”!

domingo, 29 de novembro de 2015

“Grande é a poesia, a bondade e as danças..."

... "Mas o melhor do mundo são as crianças…" (Fernando Pessoa) 


Um dia, a Margarida contou-me que o infante Guilherme só comia peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo - recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos” nos gelados ou nos iogurtes ...
Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas
que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” ...
Já o Hugo, quase a terminar a primeira parte de um jogo de futebol, farto de tanto pontapé numa bola, sem um golinho  dos "nossos", questionou:
- O jogo muda aos "quantos"?....



sábado, 28 de novembro de 2015

Bhav Gonzaga



Hoje, por ser hoje...




Entre a (minha) croniqueta que fiz publicar na “Plateia” sobre o “Tema para um Homem Só”, em 1979, e a “leitura” musical deste “Shangri-La Goa” acabado de nascer (2012), vai um mundo de emoções que não consigo traduzir em palavras - falta-me engenho e arte para juntar letras e construir frases inteiras, das que dançam embaladas pela cadência da (tua) música…
Lembro-me do festival RTP da canção, em 1979, e do teu nervoso miudinho antes de entrares em cena. Depois, não muito depois, o tempo fez com que partilhássemos os bastidores de múltiplos espetáculos.

Contas feitas, já passaram mais de trinta anos – tempo de uma vida à volta de outro tipo de emoções, com Moçambique a fazer a ponte entre as minhas e as tuas memórias, dos “meus” Night Star’s”, de mim para mim, tu e os outros com as lembranças felizes dos teus “Apaches”. Como o tempo passa…

Encantado com os temas de “Shangri-La Goa”, quero tornar público o abraço cordial e fraterno pelas lembranças do “outro lado do mundo”.~

 Kanimambo!
*
2012
 

    






quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Insónias e pesadelos

Vá lá saber-se porquê, uma noite destas tive uma insónia que me deixou mais cansado do que estava quando me deitei.
Dei conta disso depois das voltas nos lençóis; como se não bastasse o corpo maçado, também a alma ficou dorida pelo corrupio de ideias que durante todo esse tempo afloraram à mente, coisas parvas, estúpidas, algumas sem sentido, mas eram ideias e pronto - guardei-as para descodificar em melhor ocasião
Tenho para mim que a falta de sono surgiu na sequência de um daqueles pesadelos de que quase nunca nos lembramos ao acordar; coisa boa, no mínimo razoável, não terá sido...
Como é bom de imaginar, horas a fio naquele jeito incómodo de estar, deram-me a volta à cabeça. Ainda peguei num dos livros que tenho à cabeceira, “Rio das Flores”, de Miguel Sousa Tavares, mas a leitura não trouxe o resultado esperado; reconhece-se ao autor talento e qualidade na escrita e na palavra dita, mas este romance, a meu ver, peca pela minúcia de determinados relatos e esse pormenor enfadou-me, confesso.
A propósito do título, quando o li, pareceu familiar. Pelas dúvidas, fiz uma busca (abençoada Internet!) e encontrei: Rio das Flores é nome de cidade brasileira, pertence ao município do Rio de Janeiro! Mera coincidência, dirão, também creio…
A propósito, o Brasil é um país que me seduz por múltiplas razões; “sei” de um colibri, passarito simpático, de bico esguio e ágil, que suga o néctar das flores pairando no ar com as asitas em frenética velocidade, como todos fazem; este rodopiou uma, duas, vezes, à volta da “primavera” e quase a beijou, como se fosse flor.
Será – é! – uma imagem romântica, como outras que poderia surripiar da obra do poeta Mário Quintana, por exemplo, mas basta esta para ilustrar a poesia do gesto.
Obviamente, não é só o “beija-flor” que me fascina naquele país irmão Pouco amante da arte do samba, prefiro a dança do futebol, aprecio a paisagem “ africana” de que tenho saudade, e o quentinho do clima – outra saudade, agora ainda mais sentida pelo contraste do frio que vai fazendo por cá…
Volto à minha insónia.
É fantástico como no “silêncio do escuro” se pensa de forma profunda nos afrontamentos da vida e nas “soluções” para os problemas que carregamos diariamente! Porém, quando vem a luz do dia, ou se acendemos a lâmpada do candeeiro da mesinha de cabeceira, aquilo que parecia ter lógica, deixa de ter, e as soluções, quando muito não passam de hipóteses…remotas.
Quero dizer que devemos estar em permanente escuridão quando se procuram decisões para os problemas de vária ordem e qualidade? Nada disso - é importante que tudo seja feito às claras, sob pena de ficar alguma sombra incomodativa.
Se há uma solução para determinado coisa que atrapalha, vamos a ela!
O pior é quando não se consegue enxergar uma luz ao fundo túnel e as insónias se confundem com pesadelos…
Como sou um “sortudo” nestas coisas, ando por aí de “candeia acesa”, mas nada de avistar soluções para os meus achaques - só insónias e pesadelos.
Hoje vou jogar no euromilhões!
*

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A "rapariguinha"

Reescrever uma estória publicado em 21.11.06
*
A rapariguinha disse à amiga que estava grávida.
São demasiado jovens. Brincam com coisa séria, pensei.
- É verdade, estás mesmo grávida?
- Estou com um mês, é verdade.
- Que idade tens?
- 17.
- E o teu namorado?
- Tem a minha idade.
A amiga entra na conversa:
- Anda por cima esta parva engravidou de propósito!
- Foi? - quis saber, curioso.
- Foi, pois - respondeu de imediato, com ar feliz, como se tivesse subido ao Everest, e conta:
- O meu namorado enganou-me com outra e eu, como queria ficar com ele, engravidei para o prender. Em minha casa ninguém queria acreditar, nem ele, mas fui fazer os testes à farmácia, e quando os mostrei é que viram que não estava a brincar!
- És "muita stupida" - atira-lhe a amiga, com ar de desprezo.
A rapariguinha encolheu os ombros, continuou a sorrir e saiu do RiTuAl.


domingo, 22 de novembro de 2015

Por ser domingo...


Não é o domingo que me descansa mas, por ser domingo, liberto-me de alguns afazeres institucionais - sou dono absoluto das vinte e quatro horas  deste dia cinzento e frio, como estava anunciado.
De pijama vestido e  bem agasalhado, depois do pequeno almoço, acendi a lareira e decidi reservar a manhã para terminar a leitura  de "Mulheres de Cinza", de Mia Couto.
A obra é mais uma centelha do talento  do autor, a merecer público  louvor; por mim, leitor incondicional, não lhe "perdoo" que tenha deixado a esbelta e bonita Imani,  protagonista da estória, com água na boca por não consumar  o desejo de "(...)  ser mulher...|" nos braços do sargento Germano...
O pormenor que respigo do livro trouxe à minha memória passagens do tempo que vivi nas mesmas paragens, Inhambane e arredores, sendo certo que Mia Couto não exagera nos atributos físicos  com que desenhou a jovem Imani. Inhambane, além de ser "Terra da Boa Gente", como lhe  chamou Vasco da Gama, a caminho da India, é pátria de lindas mulheres. Perdi-me de amores por uma...
Hoje, por ser domingo, decidi-me por um "almoço à portuguesa": bacalhau com batatas e couve tronchuda. O bacalhau foi pescado nos mares da Islândia,  as batatas e a couve vieram do quintal do vizinho;  azeite novo (das minhas oliveiras)  e  dois dentes de alho (espanhóis)   condimentaram o prato. Para acompanhar, com requinte de escanção, escolhi um vinho alentejano de 2003 e  deixei-o "respirar"  a preceito...
Para sobremesa, uma fatia de queijo de Seia e uma banana do Equador...
De volta à lareira, fiz-me acompanhar de um café "Delta"  e  beberiquei  boa porção de medronheira,  do tempo da mãe Natália. 
- "Almoço à portuguesa", ou quase...
A tarde insiste na melancolia  dos dias tristes e as  gatas não "pedem" para ir ao quintal, como é hábito.

Sonhos do profeta com que me fiz



Guardo a recordação de largos minutos de conversa sem rumo certo, embora o motivo que nos levou à fala fosse de importância coletiva, de toda uma comunidade. 


Sem soluções no imediato, limitei-me aos argumentos de ocasião e fui deixando a promessa do meu empenho em levar a bom porto as justas reivindicações das duas senhoras, uma de cabelos da cor da neve, a outra com eles quase grisalhos.

Com a atenção dividida pelas duas, nem dei conta do tempo passar...

As conversas estavam servidas numa taça Lalique, como as cerejas à sobremesa; foi por isso que a uma se seguiu outra, e outra, e outra! Desfrutei, pois, o momento que era único - será único, digo eu, porque faço de profeta quanto ao futuro.

Horas depois, agora, noite alta a entrar na madrugada, continuo com a agradável sensação de que, como a Samaritana, que Coimbra canta, ( “… que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte”) , também eu fiz bem em aceitar a conversa “…a las cinco de la tarde”, (apetece-me citar Garcia Lorca pela coincidência da hora e não pelo conteúdo do poema!…) – e vou trauteando o fado coimbrão, cuja mensagem bem pode ter alguma analogia com o que me vai no pensamento  se uso o adjetivo “plebeu" e o associo à “redentora” de cabelos grisalhos – não por ser quem é ou pela imensidão do sorriso que redimiu o meu dia, mas pelo efeito circunstancial de me deixar acordado na sensação agradável… de um fado!

Grave, grave, é imaginar que o sono tardará, e quando vier… talvez carregue sonhos do profeta com que me fiz na estória. 

Como tomo umas quantas pílulas para manter o equilíbrio entre a “mínima e a máxima”, o ritmo cardíaco deve estar “normalizado” pela manhã, mas nunca fiando!

… Pelo sim, pelo não, uma médica à distância de uma consulta vinha mesmo a calhar!

sábado, 21 de novembro de 2015

"Memórias" de Gabriel Garcia Márquez


Reli "Memórias das minhas putas tristes", de Gabriel Garcia Márquez, colombiano, prémio Nobel da Literatura em 1982 com a obra "Cem Anos de Solidão".

Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".

...Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior".

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mia Couto - "Mulheres de Cinza" ( ..."onde moram os feitiços")

Tenho à cabeceira  "Mulheres de  Cinza", de Mia Couto - muito mais do que um escritor universal, no meu conceito de, medulamente, o identificar como parte de mim. "Medulamente", sim - é seu o termo com que me honrou, autografando "A Confissão da Leoa", em 2012,  como um dos seus. 
Assim, somos gente dos mesmos lugares...
Mia Couto é  o instantâneo de uma viagem com  este "...primeiro livro de uma trilogia moçambicana". Preto no branco, em "Mulheres de Cinza", regresso a Inhambane, Inharrime, Marracuene...
Mia Couto enfeitiça-me com as palavras. Falta "olhos nos olhos" para confirmar, como diz, que é "... aí que gostam de morar os feitiços".

domingo, 15 de novembro de 2015

" Lei do talião" - sim , ou não?

Sou um dos que deixa cair uma lágrima quando a emoção é mais forte do que a razão. 

Desde que me conheço, sempre reneguei a violência física. Quando a verborreia das palavras justifica  resposta a condizer na mesma forma e estilo, recuo nos gestos, faço silêncios incómodos para mim e para o meu opositor. Depois, no sossego dos meus pensamentos, revolto-me  por ser como sou, "fraco", "cobarde", talvez...

Porém, há momentos em que (parece...) nada sei de mim, o que me assusta, confesso. Agora - hoje, ontem - era bem capaz de levar à letra  a "lei do talião": olho por olho, dente por dente.

A partir do segundo em que tomei conhecimento da carnificina ocorrida em Paris, parou (quase) tudo no meu pequeno mundo: continuo preso às notícias da TV, a toda a hora, acordo uma, duas vezes por noite e recorro ao tablet para  estar a par dos desenvolvimentos dos factos, telefono a alguns amigos para trocar ideias... esqueço-me das minhas obrigações sociais, em suma.


Devo estar doente, terrivelmente doente, ou virei do juízo (?) por insistir  na punição que é devida a quem praticou tamanha barbárie.


Amanhã "estarei melhor", embora preocupado com  coisas mais comezinhas do meu universo solitário  - essas sim,  a justificarem toda a minha atenção, não vá deixar fugir  as minhas duas gatas, ambas  com cio. Anda pelo quintal um gatão  esbranquiçado,"ranhoso" e  mal tratado, triste figura que não se aconselha para namorico.

O meu coelho de estimação, o "Guilherme", levou sumiço. Continuo triste com a sua ausência. Por ele, ainda  me cai uma lágrima se não "der sinal de vida"...

... No pombal, há mais dois borrachos, lindos, lindos, brancos. Ontem deixei-os livres -  regressaram a casa depois de umas quantas piruetas e um sem número de voltinhas por cima do telhado.


"Acordar vivo"...



Haverá saudade que não seja infinita? Mia Couto – “Mulheres de Cinza”







Ao nascer, o dia sete de novembro trouxe a expectativa de sol brilhante e a certeza de que, a partir de agora, de dois em dois anos, terei de substituir o documento que me autoriza conduzir viaturas ligeiras. Para qualquer setentão, esta é a regra…

Para cumprir a lei, o melhor remédio é acordar todos os dias. Depois logo vejo … ou não !

sábado, 14 de novembro de 2015

"Pedra filosofal"

"Descomplica-se" o poema porque o amor não é complicado...

Ler e reler na companhia das palavras de António Gedeão:

"...o amor é tão lícito quanto a vida, faz parte dela;a vida é imaginação,a imaginação recria sonhos, os sonhos comandam a vida...e assim se fecha o circulo de cada um e de todos os que colocam amor na paixão, a paixão no amor, o amor na amizade - há sempre um principio e um fim...
- Haverá?... "
06.05-09

Já se vai embora?

A tia Deolinda (por parte da minha ex mulher) era uma senhora de uma gentileza sublime; tinha sentido de humor e até os queixumes sobre a sua avançada idade vinham envolvidos em sorrisos. Teria sido uma pessoa divertida e alegre na mocidade e, por razões que nunca questionei, não chegou a constituir família.
Durante os anos em que privámos, sobretudo durante as visitas de cortesia, recebia com um certo requinte: chá, café e bolinhos servidos em louça ”de marca”, toalhas bordadas à mão, mas o melhor de tudo eram as conversas sobre as suas memórias…
Não sendo senhora de frequência diária, sempre que podia assistia à Missa. Um dia, contava a tia Deolinda, estava tão absorvida nos seus pensamentos que não deu conta que se aproximava o momento da saudação. De repente, a pessoa que estava a seu lado, cumprimentou-a com um aperto de mão e ela, sem saber muito bem que dizer, possivelmente a pensar nas despedidas, continuou, como sempre, a ser gentil e fina no trato com palavras de circunstância, enquanto mantinha a mão que lhe era estendida apertada na sua:
 - Já se vai embora? Fique mais um bocadinho…
“Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto” – terei feito o mesmo, mas a estória da tia Deolinda é verdadeira e faz sorrir, o que, nos dias de agora, dá um certo jeito… por ser de borla.
21-10.11

domingo, 18 de outubro de 2015

Exercício sobre dois búzios ( de Sophia de Mello Breyner)

O acaso devolveu-me à leitura de “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner. O livro, que descobri numa arca no sótão, editado em 1971, tem as folhas amarelecidas pelo tempo - nunca as palavras imortais da autora.
Nesta edição (a 4ª), o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assina o prefácio e é pela leitura das páginas que escreveu - mais de cinquenta! - que D. António nos remete para a excelência da obra de Sophia, apontando a sua enorme espiritualidade como referência a ter em conta.À genialidade do conhecimento de D. António Ferreira Gomes junte-se o talento da maior poetisa portuguesa, e ficamos com uma “peça rara” do nosso património cultural.
Qualquer português minimamente culto conhece alguma coisa de Sophia de Mello Breyner. Particularmente, creio que “A Viagem” é uma espécie de catecismo pelo facto de dimensionar a esperança de qualquer humano, entre o “Alfa e o Ómega”, até aos limites do quase impossível!Na estória de ficção, além do mais, a autora desenha poesia e poetiza a música das palavras, como sempre fez, com sensibillidade ímpar.Não admira que a saudade de si, por tudo quanto legou à Humanidade, regresse nas asas do tempo, como a excepcional voz da cantora brasileira Maria Bethânia deixa transparecer no álbum "Mar de Sophia", editado, salvo erro, o ano passado, onde o mar e os seus símbolos, a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner, nos transportam para viagens de completo encantamento.Para meu regalo, a comunhão do belo (as palavras da Sophia na voz da Bethânia) chegou aos meus ouvidos numa tarde calma, bem longe do mar que a poetisa amava como se fosse coisa sua – somente sua!
A “minha serra” sempre foi o lugar perfeito para a poesia que me enche a alma – por vezes descubro por cá, no silêncio, oceanos de emoções que nem a morte há-de apagar da memória dos vivos!… E hei-de “voltar à minha serra”, como a Sophia ao seu mar:-“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não passei ao pé do mar”!Ainda nos “Contos Exemplares”, num deles (Homero) a autora retrata “… um velho louco e vagabundo a quem chamam Búzio…”. Obviamente, o texto mantém o estilo e a arte poética de Sophia...
De novo e sempre o mar:-”O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas…”.Em Junho passado, depois das férias, conheci outro búzio: “ O Búzio de Cós e outros poemas” – novas imagens de outros mares que Sophia não precisa mencionar – basta uma simples e bela concha fusiforme e fica perfeito o cenário de Cós, ilha do mar Egeu, onde Sophia comprou o búzio “numa venda junto ao cais…”.
Às suas epopeias, Sophia de Mello Breyner, agrega dois búzios impregnados de simbologia que tocaram a minha sensibilidade: a um faltava o aconchego de uma “concha”: “ O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio...”; ao outro não ouvia “ … nem o marulho de Cós nem de Egina…”.
Por mais que me deleite nas marés dos seus poemas, fico sem saber quantos mares formam o caleidoscópio da áurea de Sophia de Mello Breyner…
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"estórias de trazer por casa"/14.02.09

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

As saudades são como as cerejas (1)

...Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. Se ouço um fado de Coimbra – um que seja! -tenho saudade das serenatas que, durante um ano, em Coimbra, me libertavam do sono, noite após noite, porque tive a sorte de morar num apartamento paredes-meias com outro, onde havia uma "república" feminina – era por elas, as residentes do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração/ louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas, que o Paião havia de imortalizar anos mais tarde...
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"estórias de trazer por casa" / 11-07.09

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Pensando bem...

Pensando bem, o melhor é assumir desde já a minha aversão à violência – seja ela física ou verbal.
Da primeira quero distância, e da segunda  às vezes aproximo-me - aguento-a com tento na língua e  vou à luta quando o opositor justifica que esgrima argumentos.
No confessionário admito as minhas fraquezas e a ignorância do desconhecido; apenas sei  “ ler e escrever”, e a inteligência não me presenteou com a erudição dos predestinados.
O caráter, esse desejo-o firme quando vacilo, não importa quando, onde e porquê – sendo humano, caio e levanto-me as vezes que forem precisas. Obviamente, recuso-me a existir de joelhos no limbo da minha consciência, que morrerá  inteira se para tanto o juízo não me atraiçoar um dia destes …
Aprecio o belo de cada coisa e olho o horizonte com a atenção que é devida ao Universo. Mais perto, à distância dos sentidos, a sensibilidade de que sou capaz permite a paixão do amor - de todo o amor! Assim sendo, insisto na denúncia da minha teimosia: gosto, por que sim, sem nenhuma explicação adicional para este mau feitio de quem permanece fiel à estética do amor.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Sonoridades






Tenho quarenta minutos para escolher as palavras com que espero construir esta croniqueta, certamente curta, longa nas pausas não programadas – depende das emoções partilhadas com o mágico (Antoninho) Travadinha que faz “ (…) soar a sua rabeca de forma nunca ouvida (…)”, embalando-me com mornas e coladeras fora de horas.

Quarenta minutos é a soma do “tamanho” das melodias interpretadas pelo mestre, masterizadas em CD.

Cabo Verde festeja a sua independência e é pelas memórias de África que caminho nestes quarenta minutos de deliciosas sonoridades: Cesária Évora, primeiro, agora Travadinha, inigualável, “(…) como só ele sabe tocar (…)” o seu violin du Cap Vert  - palavras de João Freire, ao jeito de comentário sobre a curta obra discográfica do mágico da rabeca.

 Das minhas memórias de África guardo as de Moçambique, ao  sabor da irreverência da juventude...

Tenho a alma cheia das “marrabentas” do conjunto João Domingos, mas o que me faz falta é o piano do Renato Silva e a guitarra do Mário, dos Night Stars, rapazes do meu tempo, com quem convivi alegremente fora e dentro dos palcos, como “testemunha esta preciosidade” fotográfica…
Só por hoje, sou cabo-verdiano… 


quarta-feira, 17 de junho de 2015

"A última aula” de Randy Pausch





Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Não é necessária definição filosófica para termos a consciência do nosso estado de alma: contentamento, sensação de bem-estar, prazer, e um sem número de nadas que consubstanciam as emoções. Sendo certo que a felicidade chega sempre em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera…bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
“Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante, assim:
Decide-se um primeiro encontro e, a páginas tantas, descobrem-se empatias nos olhares que sobram de cada conversa…
Espera-se o conhecimento das feições da pessoa que se adivinha espiritual e sensível na poesia das palavras que junta – o momento de satisfazer a curiosidade é sublime!...
Se “ela” diz que sim, como canta o poeta Viriato da Cruz no “Namoro” (que não me canso de citar!), aquele instante é divino…
A visita inesperada, o aumento de ordenado, uma agradável conversa, um opíparo jantar, uma noite de amor, o nascimento de um filho, … quanta felicidade – até no gesto de um cativante sorriso! 
Há, pois, em cada dia – mesmo que a vida se mostre “madrasta” – segundos de prazer que não contabilizamos por manifesta ganância: foi pouco, quase nada – queríamos mais, quase tudo, um “jackpot” constante e permanente! 
Se me perguntassem sobre a última vez em que fui feliz, diria: há pouco, quando li um belíssimo texto, embora curto, escrito na sombra do anonimato. Estou como certo sujeito que ia ouvir a “Flauta Mágica”, de Mozart. e abandonava a sala de seguida: ficava “saciado” para o resto do serão – assim estou eu neste principio de noite… 
Pensando bem… continuo moderadamente feliz porque a dor que tinha nas costas já não me apoquenta, a música que ouço “descansa-me” em absoluto, há pouco espreitei pela janela e vi o céu estrelado, o chá de cidreira fumega na chávena, e daqui a nada tentarei adormecer depois de ler umas quantas páginas de um dos livros que tenho à cabeceira, talvez…“A última aula”, de Randy Pausch. 
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, é melhor do que somar fantasmas. Acordar depois de uma noite de sobressaltos, não augura nada de bom para as primeiras horas do dia seguinte, o que não impede de sonhar com um bonito dia, mesmo que o céu esteja tapado por nuvens negras e a chuva persista, teimosa… 
“Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional. 
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas 
Aconselho vivamente a leitura da “ A última aula”. 
… E, por favor, sejam felizes.
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Escrito no dia 10 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Na soleira de um número redondo

Estou na soleira de um número redondo, como determina  o calendário. Veremos se  franqueio a entrada às minhas memórias. Tenho a intenção de  consultar o deve e haver do livro caixa e conferir   o saldo do saco azul...
Há documentos  por arquivar, como estes, que registam outro número redondo: dez anos de utopias!
Feito de cobre, o baú das grandes memórias rebenta pela solda das costuras

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sábado, 30 de maio de 2015

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se"

Quando somos confrontados com surpresas, de todo inesperadas, boas ou más, bonitas ou feias, amores ou desamores, amigos que foram inimigos e/ou inimigos que agora são amigos, fidelidades ou traições, pessoas que foram gordas e agora são magras e/ou magras que já foram gordas (...), trago à ideia a "Coca Cola", de Fernando Pessoa...

A ”praça pública”, onde se esgrimem argumentos


Ao longo de quase setenta anos (melhor: sessenta - desconto dez para me situar em Coimbra, no falecido Liceu D.João III, depois no Externato Alves Mendes, em Arganil, e mais tarde no colégio Luís de Camões, em Lourenço Marques...) procurei formatar o caráter e, como qualquer estudante da época, li os clássicos e construi o meu jeito de estar entre os iguais do meu tempo. Hegel, marcou-me de uma forma tão "sublime" que, de quando em vez, volto à leitura de coisas suas, como é caso da obra Estética - “A ideia e o Ideal” (mas posso citar outras mais, "coisas minhas" escritas por Hegel, quando me situo no etéreo das dúvidas sobre o meu eu absoluto: existo? 

Do empirismo das (minhas) teorias com que me dou inteiro, à assunção de um certo romantismo de cavalheiro, em desuso nos tempos de agora, não ouso definição capaz de me aproximar do mestre da Estética – “A Arte Simbólica”. Hegel é difícil de entender. “Teimoso” na defesa das (suas) ideias, imagino-o na “praça pública” a esgrimir argumentos sobre a “estética” da mistura de estilos e volumetria de determinadas peças, brancas e cinzentas, e sua utilidade… 

Por mim, a escolher, a ”praça pública” onde se esgrimem argumentos seria pintalgada de outras cores, com a predominância do vermelho dos campeões – e um pouco de verde, pronto, para satisfação dos meus conterrâneos, nada contentes com a “medalha de bronze”…

“…  Chamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o disse, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada” - Hegel