quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Brinquedo de corcódea


Era uma quinta enorme, com terreno de cultivo bordejado de macieiras. E tinha uma casa de arrumos onde guardava as minhas construções de corcódea; a última foi uma miniatura de um carro de bois ( o transporte da época para o renovo da quinta, onde se "dava de tudo", como se fala por aqui...).
Em fevereiro de um ano, as terras estavam de pousio e eu também, sem grandes quereres nos meus onze anos, mas fui de livre vontade até onde o navio me deixou, quase um mês depois do adeus a Lisboa.
Lourenço Marques era uma cidade linda, tão linda que me prendeu nos seus encantos - ainda morro de amores por ela!
Um dia, homem feito, regressei ao meu sítio e voltei à quinta, de visita, para procurar o meu carrinho de corcódea, com duas rodas minúsculas e duas figurinhas que em nada se assemalhavam a animais de carga, sem chifres - lembro-me bem do feitio da minha "escultura"!
Tinha a certeza de que a deixara numa prateleira, ao alcance da minha mão... mas a prateleira estava vazia!
Da casa restam duas meias paredes e, aberta numa delas, a prateleira "guarda a alma" do meu brinquedo... 
março, 2009