quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Brinquedo de corcódea


Era uma quinta enorme, com terreno de cultivo bordejado de macieiras. E tinha uma casa de arrumos onde guardava as minhas construções de corcódea; a última foi uma miniatura de um carro de bois ( o transporte da época para o renovo da quinta, onde se "dava de tudo", como se fala por aqui...).
Em fevereiro de um ano, as terras estavam de pousio e eu também, sem grandes quereres nos meus onze anos, mas fui de livre vontade até onde o navio me deixou, quase um mês depois do adeus a Lisboa.
Lourenço Marques era uma cidade linda, tão linda que me prendeu nos seus encantos - ainda morro de amores por ela!
Um dia, homem feito, regressei ao meu sítio e voltei à quinta, de visita, para procurar o meu carrinho de corcódea, com duas rodas minúsculas e duas figurinhas que em nada se assemalhavam a animais de carga, sem chifres - lembro-me bem do feitio da minha "escultura"!
Tinha a certeza de que a deixara numa prateleira, ao alcance da minha mão... mas a prateleira estava vazia!
Da casa restam duas meias paredes e, aberta numa delas, a prateleira "guarda a alma" do meu brinquedo... 
março, 2009

- Ai credo !....

(...) Seis horas numa sala de espera, dão para imensa coisa: ler o jornal, partes de um livro, ouvir as conversas dos vizinhos, ou passear o olhar pelos rostos de quem está por ali… à espera. Aproveitei o tempo consoante o cansaço que proporciona a incómoda cadeira; se me concentrava na leitura, de quando em vez, ficava em alvoroço com uma voz de mulher que vinha do altifalante. Era timbrada, e os decibéis, acima da média para o local, preenchiam “violentamente” o espaço.
Ao meu lado, uma senhora, entrada na idade, “ passava pelas brasas”. Tantas vezes se sentiu incomodada com as chamadas, do estilo “António Francisco Simões, sala cinco” (aquilo era rápido, questão de segundos!), entre tremores e um ressonar “simpático”, a dado momento, talvez por estar a meio de um sonho bonito, deu um salto na cadeira e soltou um sonoro desabafo:
-“Ai credo, porra que me assustei”!
Nessa altura estava  preso à leitura das últimas sobre o “meu” Benfica, depois de ter mergulhado numa crónica do Miguel Esteves Cardoso.
-“Carlos Alberto Ramos, gabinete dois” – chegou a minha vez!
Eram três da tarde.

Posso ajudar?

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que "conheci" Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses.
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante mais afastada do balcão. E ela vinha, apesar de se ter apercebido da marosca, com um sorriso maroto.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a "ajuda" não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, da música em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem e eu teria saído do canto da minha timidez ... 
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar!
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Fim de festa



Depois de uma relação mal resolvida, em 1967,  raivinha miúda, felizmente passageira e sem efeitos colaterais...

*
Queria ver-te nua
e da alma despida
na rua,
perdida...
Em gozos celestiais,
êxtases de loucuras
e orgias de entontecer,
banais seriam as tuas graças
- desventuras talvez!
E eu, rosto enxuto,
braços cruzados,
a ver morrer aos poucos,
de vez,
a alma,
o corpo,
a tua imagem,
sem coragem
de oscular em fim de festa
o pouco que de ti resta....

Gargalhar, rir e sorrir faz bem à saúde

Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas unidos, juntinhos, como os pinguins no Ártico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar - sobram algumas graças do Fernando Mendes no “Preço Certo”,  e no "5 p'ra meia noite", e isso é preocupante.
Não somos um povo alegre, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), de sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. Agora perdi-o de vista. 
O jeitinho para ator é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! –, mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é ótimo.
Perante o que se lê e vê nos canais da TV, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja para ficar ao corrente das (suas) gargalhadas.
***

"Três alentejanos reunidos tentam encontrar uma nova maneira de passar o
tempo.
Diz um: – Oh compadre, já chega de sueca e dominó. Tou farto disto!!
Diz outro: – Atão e se fossemos jogar golfi ?
Pergunta o primeiro: – Atão, oh! compadri, com’é quisso se joga ?
- É c’um pau, umas bolas e um buraco.
Responde o outro : – Atão tá beim ; ê cá dou o pau.
Diz o segundo: – Prontos ê cá dou as bolas.
Responde o terceiro : – Cumpadres, ê cá nã jogo."




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Lulu, a raposa

Publicado no "Correio da Beira Serra" em 2008





La Fontaine não teria desdenhado juntar às suas fábulas a estória da raposinha que vem todos os dias – e à hora (quase) certa, mais minuto menos minuto! – “jantar” ao restaurante “Vale dos Amores”, perto de Fiais, na freguesia de Ervedal da Beira. Se os “animais falassem”, seria curioso conhecer de “viva voz” o que vai na cabeça da raposinha para se entregar de “corpo e alma” à gentileza da sua presença, que já se tornou um hábito.O proprietário do restaurante, Humberto Cerejeira, conta como tudo começou:
-“ Eu e a minha mulher, há uns quatro meses, começámos a notar que o saco do lixo aparecia rasgado. Pensávamos que era obra de algum cão que andasse por aí, de noite, mas um dia a minha esposa viu a raposa perto e não fez nada para a assustar; então, o animal foi aparecendo, dávamos restos de carne, e ela acostumou-se a nós”.
O Humberto, carinhosamente, batizou-a de “Lulu”.
No dia em que a equipa de reportagem do Correio da Beira Serra se deslocou ao Vale dos Amores, já a tarde caminhava para a noite, o restaurante tinha a esplanada bem composta de clientes, alguns deles, conhecedores da notícia, eram repetentes. A primeira surtida da raposinha tinha acontecido minutos antes, mas ficou a promessa do Humberto que “… não tarda por aí, é uma questão de esperarem um pouco mais, porque ela pega no pedaço de carne e vai esconder, nunca come perto de nós…”. Na verdade, daí a nada, os clientes mais atentos viram-na chegar; fez uma pausa a uns metros de distância, e como ninguém lhe fez negaças, aproximou-se devagar, orelhas levantadas e o olhar atento ao mais pequeno movimento.
-“Lulu”, toma – diz o Humberto – e o animal, sem pressas, aproximou-se por entre as mesas, abocanhou o seu quinhão de carne, e voltou, nas calmas, pelo mesmo caminho. A cena repetiu-se várias vezes, mesmo quando a ração era entregue por uma criança. Por vezes ficava parada perto da esplanada, como se esperasse que o “padrinho” a “convidasse” a entrar – só a ele e a mais ninguém a raposinha “respondia”. Numa floreira alta que fica perto, o Humberto escondeu um pedaço de carne; ela aproximou-se, um pequeno salto, farejou e levou o “petisco”!
-"Não pensem que a “Lulu” come de tudo, tem o gosto refinado – comenta o Humberto – pão, só se tiver manteiga, não gosta de sardinhas assadas, prefere carne, mas do que ela gosta mais é de camarão”!
O animal é, como se calcula, uma atração no restaurante. Como mais vale prevenir do que remediar, foi desparasitada e já “…falei com o médico veterinário para ver se a conseguimos vacinar e colocar-lhe uma coleira”, acrescenta o Humberto que, a talhe de foice, sempre vai passando palavra aos vizinhos – não vá alguém ter a infeliz ideia de fazer uma espera à “Lulu, de caçadeira na mão…
(...) O “padrinho” tornou-se responsável por ela, cativou-a, como na estória do “Principezinho”, de Saint-Exupéry.
-“ Lulu, toma”!

domingo, 29 de novembro de 2015

“Grande é a poesia, a bondade e as danças..."

... "Mas o melhor do mundo são as crianças…" (Fernando Pessoa) 


Um dia, a Margarida contou-me que o infante Guilherme só comia peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo - recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos” nos gelados ou nos iogurtes ...
Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas
que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” ...
Já o Hugo, quase a terminar a primeira parte de um jogo de futebol, farto de tanto pontapé numa bola, sem um golinho  dos "nossos", questionou:
- O jogo muda aos "quantos"?....