sábado, 12 de dezembro de 2015

Jovial e cómodo nas memórias




São dois os artistas, dois os instrumentos: uma Fender e uma Ovation que se completam como amantes apaixonados; à suavidade das cordas de nylon sobrepõe-se o timbre do aço no solo de peças musicais, tão clássicas quanto a minha mente consegue catalogar no tempo: "Guitar Tango", "Apache", "The Savage"... e mais e mais!!!
Os " Shadows" foram e são o meu grupo musical de eleição,  deles guardo "quase tudo", desde os primórdios dos seus verdes anos à década de oitenta - outra época de ouro nos arranjos de "Themes & Dreams", por exemplo.
No meu "universo", de teto negro e paredes claras, onde repousam quadros do Wil de Wildt, Frenk Steffens e Rui Monteiro, iluminados por luz branca e directa, o som que me chega aos ouvidos vem do dedilhar das cordas das violas. Por sorte da imaginação fértil, o Hank Marvin faz  com que me sinta jovial  e cómodo nas memórias...













terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O homem do realejo





Enquanto esperava  o cortejo
o homem do realejo
trocava olhares misturados com sorrisos
com a boneca das pernas compridas, grandes, enormes.
Veio a turba a reboque das sardinhas assadas,
dos couratos e pasteis,
do bucho e da chanfana.
A boneca ganhou vida - cresceu em altura,
o realejo tocou,
o homem sorriu;
o povo sorriu,
o presidente sorriu – todos os presidentes sorriram,
os confrades sorriram,
o emplastro sorriu,
os homens da segurança, não.
A boneca desceu das pernas altas, o homem pousou a mão no realejo - tinha passado o cortejo!













 Publicado em junho/2011 - visita do Presidente da República a Arganil

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Rosa cor de rosa



Gosto de todas as rosas, mas aprecio sobremaneira o tom vermelho escuro das que crescem no meu quintal no tempo próprio, não agora, nascem tardias, quase a medo, não vá a geada uma noite destas reduzi-las à lembrança da Primavera, o que acontecerá mais cedo ou mais tarde…
Um dia destes  surrupiei uma dessas rosas de outono com a intenção de a colocar numa jarra, como sempre faço – um luxo a que me dedico com inusitado prazer.
Dada a fragilidade das pétalas, coloquei-a com muito cuidado no banco do "pendura" e fiz-me à estrada sob chuva forte. Os pensamentos teriam pouco sentido porque concentrava toda a atenção no tráfego, apesar de pouco intenso.
Na "estrada real", próximo do "sítio do costume", disse de mim para mim: "com este tempo, não há rameira que aguente a espera de eventuais interessados na aquisição dos seus serviços"!
Puro engano. Depois de uma curva, na berma da estrada, uma figura feminina, esguia, de minissaia, acoitava-se sob um guarda-chuva. Do outro lado, estava outra, sujeita ao mesmo desconforto. Travei suavemente, o carro continuou a marcha mais devagar, e ao passar por aquela que estava estática junto à minha faixa de rodagem, cruzámos os olhares por breves segundos – "mais um que se limitou a olhar ", terá pensado  a senhora esguia vestida com uma minissaia.
Embora frágeis, as pétalas da minha rosa cor de rosa mantiveram-se harmoniosamente juntas.
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Resumo de uma croniqueta publicada em 2009

domingo, 6 de dezembro de 2015

À boleia - dedo grande no ar

Por cima da minha cabeça, mas a muitos metros de altura, uns quantos aviões, diariamente, insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio" da provocação dos meus sonhos: Açores e Maputo são os "próximos destinos", mas ninguém os adivinha, e como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço, dedo grande no ar..