sábado, 2 de janeiro de 2016

Um rio que foi oceano

O meu sítio, Barril de Alva, tem recantos que, fosse eu poeta, havia de imortalizar em palavras nunca somadas em verso, com ou sem rima - bastaria que, em mim, houvesse engenho e arte para transformar o belo do pensamento...
O Urtigal exerce tal fascínio que me transporta aos silêncios de quando me sinto solitário, voluntariamente abandonado. Aqui, no Urtigal, nem solidão, nem abandono: basta o rio que me remete para curtas memórias do tempo de menino, feitas de fantasmas e medos. 
O rio, o "meu rio", já foi oceano. É por isso que o invento  à imagem da minha infância. Possivelmente, contínuo criança...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

As minhas concubinas

…Então, foi assim: uns quantos amigos ficaram de pé em cima de cadeiras, outros, como eu, deixaram-se ficar sentados à volta da mesa, e quando os ponteiros se uniram num abraço, brindámos ao nascimento de 2016, que se quer mágico, como  Houdini.
O vizinho do lado fez subir no ar dois ou três foguetes, mais longe fogo de lágrimas e alguns estampidos, coisa pouca e de pouca dura, mas sempre deu para abrilhantar a noite. Na varanda, o concerto das tampas dos tachos  merecia mais público - o show   fui curto e sem aplausos  não há artista. O “palco” estava instalado dentro de casa e por aí ficou o grupinho familiar, que me recebeu como se fosse um deles.
Mais um ano, digo de mim para mim a caminho de casa, onde me esperam as concubinas que faço questão de ter por perto…
Só os mais próximos conheciam este segredo, agora assumido de forma pública.
Bem vistas as coisas, são elas o sustento que me permite continuar vivo e participar dos eventos a que me proponho assistir e de muitos outros, mesmo quando não sou convidado - pura e simplesmente anunciam-se e instalam-se à minha volta, dentro de mim, no meu dia a dia, invadem-me os sonhos...
Quase todos os desassossegos físicos  e alguns psíquicos  poderiam ser atenuadas, mesmo evitados, se tivéssemos tento nos comícios e bebícios, incluindo os petiscos fora de horas. Até que um dia - há sempre uma primeira vez! - qual sacerdote paroquial,  o médico confronta-nos  com o veredito  da penitência irrevogável para todo o sempre, amém! É nessa altura que as concubinas  passam a ser presença constante na nossa … dieta!
Pela parte que me toca, as minhas (concubinas) têm sido simpáticas, desempenham na perfeição o papel de anjos da guarda, mas torna-se difícil identificá-las pelo nome próprio. Amlodipina, Carvedilol, Perindopril, Tromalyt, Ezetrol e Crestor  são “nomes de gente” ?  
A propósito, lembrei-me agora que ainda não cumpri com a minha obrigação diária e é quase noite. Ainda me dá uma coisa má e eu quero muito ver nascer 2017 - pelo menos! - e o crescimento dos netos.
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Ilustração surrupiada  na net





terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Como se fossem dois adolescentes



A meio da tarde, no bar, havia mesas livres.
O casal entrou, escolheu uma delas, olharam os dois em redor e, já instalados, pediram que lhe servisse duas bebidas.
Os olhares do casal perdiam-se pelas paredes, onde estavam expostas pinturas do Wild de Wildt, Rui Monteiro e Alberto Péssimo; a música ambiente aconchegava o sossego do momento e o tom das vozes era suave.
Tocou um telemóvel, a senhora atendeu, levantou apenas um pouco a voz e falou em francês, expedita, de forma alegre. Repetiu por três vezes merci, e continuou, veloz, na articulação das palavras …
O cavalheiro, entretanto, inquire sobre o espaço: é público, não? Respondo afirmativamente. Sabe, acrescenta, como tem um estilo completamente diferente do habitual, a minha esposa deduziu que fosse um “clube privado”. Em traços largos, explico que o comércio de bebidas era um pretexto para algumas atividades culturais - a exposição que tinham à sua frente era um exemplo disso mesmo.
Terminada a conversa, foi a vez da senhora parabenizar os autores das obras expostas e quem tivera o arrojo de colocar de pé o espaço como se apresenta.
Agradeci a generosidade da gentileza das palavras.
Pergunto se estão de férias por estas paragens. Responde a senhora: de férias já estamos há imenso tempo, somos reformados, e viemos de Leiria passar uns dias a esta região, que desconhecíamos em absoluto, pernoitamos na Pousada do Convento do Desagravo e durante o dia damos uns passeios por aí. É muito lindo, tudo aqui à volta, a serra, tudo!
O encantamento do olhar transmitia alegria, satisfação, prazer, felicidade na forma mais pura – que sei eu desses sublimes sentimentos?
Sempre de sorriso nos lábios, desenhados num rosto de enorme beleza, disse ao que vieram em concreto, desvendou o segredo, enquanto o marido, talvez um pouco envergonhado, olhava terno e meigo a “jovem” e bonita esposa: faço hoje oitenta anos, e o meu marido presenteou-me com este magnífico passeio.
Oitenta?
Não, não imaginava aquela figura esbelta, meã na altura e aspeto prazenteiro com uma mão cheia de “viçosas primaveras”, muito próxima do centenário que, acrescentei, por certo irá comemorar…
Pedi licença, fui à florista Clara, logo na esquina, comprei uma rosa (que não paguei, porque a Clara conhece de longe o meu “vício” por flores e partilha a mesma sensibilidade,  volta não volta tem destas delicadezas…), regressei e com o meu melhor sorriso ofereci-a à bonita senhora – apenas uma lembrança com que procurei honrar o seu aniversário e o amor do casal.
… Fiquei com a sensação de que a rosa vermelha “ganhou vida própria e um rosto”: “um dos olhinhos sorriu, atirou-me uma piscadela” e eu fiquei a ver o casal, de mão dada, rua acima, como se fossem dois adolescentes apaixonados.
A conta das bebidas ficou por conta da casa.














RiTuAL Bar
 Oliveira do Hospital junho/2007


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

As maravilhosas capas dos disco de vinil

Passei por uma loja/armazém que vende  mobiliário holandês usado (estantes, mesas, cadeiras, cómodas...), material para decoração de interiores, e uma parafernália de coisas e coisinhas muito do agrado de um público específico. E há uma secção de discos de vinil, novos e usados, onde me esqueço do tempo -  mais pela atenção que dispenso às capas do que ao conteúdo. Toda a informação está escrita em holandês, e não há  gira discos para testarmos os gostos; sorte a minha quando busco os clássicos, não que seja consumidor constante nem grande conhecedor - gosto de  ouvir "alguma coisa"  de Tschaikoswski, Mozart, Verdi...  - enfim, tenho os meus momentos para entrar na onda dos meus temas favoritos, mas não faço saltar a agulha para silenciar as peças  que pouco dizem à minha sensibilidade de "ouvinte ignorante" - ouço  tudo com atenção e respeito, como se entrasse na catedral de Colónia...
Desta vez encontrei este LP, novo, sem um risco! A capa é fabulosa e não hesitei; comprei-o pela módica quantia de um euro!