terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"Um Almoço de Negócios em Sintra" - Gerrit Komrij

Terminei a leitura de um livro excelente, pela qualidade da escrita e das “estórias”. Apesar dos ventos que vão soprando algum progresso, estas cento e sessenta páginas de prosa refletem um pouco do povo que (ainda) somos – tão atuais em certos casos e situações, que me revejo em algum lugar à distância de oito anos.
"Um Almoço de Negócios em Sintra", "é um retrato em corpo inteiro de Portugal e dos portugueses…" à data da primeira edição; antes, já o autor deambulava por aí de olhos bem abertos, por isso não é de estranhar a sua perspicácia na análise de  costumes enraizados.
Gerrit Komrij, escritor, poeta, ensaísta e tradutor, é holandês pelo nascimento e "oliveirense" pelo coração. São da sua lavra as estórias reais que verteu para esta obra, editada e reeditada em 1999. Possivelmente, o livro está fora do circuito comercial, por isso não há intenção de levar eventuais leitores à sua aquisição, o que não seria de todo inútil, confesso, porque a leitura de "Um Almoço de Negócios em Sintra" talvez contribuísse para esboçar o auto retrato de alguns de nós. Estou certo que encontraríamos "pontos comuns" com algumas figuras ali descritas, não nos pormenores estéticos, mas perfeitamente identificados nas personalidades recebidas por herança e das quais não nos conseguimos libertar…
O autor, a dado passo, poetisa  imagem simpática, mas não compreende "o que é isso de existir uma alma portuguesa", talvez fatalista - tão fatalista como a força do fado que não consegue definir. É – escreve – "... sentimental de alto a baixo, sem nunca ser vulgar".
A aldeia onde mora o "nosso conterrâneo","... é muito carente..." mas o presidente de Junta de Freguesia (naturalmente o livro, no seu todo ou em parte, foi escrito por altura de eleições autárquicas) não se cansou de fazer promessas. "Veremos se cumpre, sobretudo o alargamento do cemitério"...
Hoje, Gerrit Komerij escreveria este livro?

Gerrit Komerij é uma das figuras mais marcantes da vida intelectual holandesa. Em 1993 foi-lhe atribuído o prémio P.C. Hooft de Ensaio, um dos mais importantes galardões literários do seu país. É autor de mais de meia centena de obras literárias e contabiliza uma mão cheia de prémios prestigiantes; em 2000 foi eleito pelo público para ser o Poeta da Nação (Holanda), estatuto que é atribuído por um período de cinco anos. Vive em Vila Pouca da Beira desde 1984.

Nota.. Faleceu no dia 5 de julho de 2012
(Crónica publicado em maio de 2009 e agora revista)