terça-feira, 14 de março de 2017

Nas asas do sonho, a caminho do Piódão

No dia 31 de Março de 2009 fiz publicar no "Correio da Beira Serra" (http://www.correiodabeiraserra.com/nas-asas-do-sonho-a-caminho-do-piodao/)  esta croniqueta, que volta à luz do dia depois de alguns acertos; os caminhos estão bem melhores e o Piódão ganhou nova alma depois das obras de requalificação. O texto original continua fiel ao "convite" que fiz  à "Lena" - era, é, e continua a ser uma amiga que muito prezo...
...E como a Mata da Margaraça comemora 35 anos da Área Protegida da Serra do Açor,   o convite, desta vez,  inclui um chá da carqueja da "minha" serra...

“Lena”:
Há dias lembrei-te as férias que Agosto coloca no passaporte; agora sugiro que vás para fora… cá dentro!
Como o vai/vem das ondas do mar cansa alguns sentidos, e a “tua” serra tem as vertentes pouco íngremes, convidei-te, se bem te lembras, para uma visita ao Piódão, que fica logo ali, do outro lado da “minha” serra.
Se decidires aceitar o convite, ficam garantidos horizontes fascinantes, para lá de todos os montes, precipícios de meter medo e, bem lá no fundo, aldeias inteiras que nem imaginas com vida – mas ela existe, e as pessoas sobrevivem às custas daquilo que a terra dá e pouco mais…
Aconselho o percurso mais curto; se vieres desses lados, de cima, entra por uma das” Portas do Açor”, em Coja, ou pela “outra Porta", no Barril de Alva; segue em frente e fica atenta às  placas que indicam Benfeita; segues… segues… segues e logo encontras a pitoresca Benfeita. Continua até à "Fraga da Pena" - visita obrigatória. A seguir, Pardieiros. Faz uma pausa e vai "bisbilhotar" o artesanato - compra uma colher de pau do tamanho que te der mais jeito transportar,  e prossegue a viagem até à Mata Nacional  da Margaraça - mais uma paragem obrigatória. Com sorte, talvez encontres o Nuno, responsável pelas visitas guiadas; simpático, o Nuno é o cicerone da Mata, muito qualificado para o efeito. A seguir, Monte Frio, lá no alto. O Piódão é para “este lado”, para a direita...
Se vieres com sede de água fresca, a meio da viagem tens a fonte do “Pião”; da mão fazes concha, e bebes até doer a garganta, porque a água chega gelada ( ou quase…).
Com a sensibilidade à flor da pele, já deste como boa a minha sugestão, e ainda não chegaste ao alto do Piódão, falta pouco…
Não te apresses … parece que te deu uma “coisa”: num segundo ficas com o olhar preso naquele amontoado de casas escuras, muito juntinhas – parecem uma só, com muitas dependências!
Pára e olha, com os olhos da alma...
Então, não dizia? Ficaste sem palavras perante o panorama incomensurável que vais guardar para todo o sempre no arquivo da memória!
Antes de desceres, deves perfilar-te perante a lembrança dos passos de Miguel Torga, que por ali andou e aí se “despediu de Portugal”, “com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada…”. A “pedra bruta”, com a frase completa, está mesmo aí, à tua frente, depois daquelas urzes, vês?
Continua a viagem devagar; se decidires pernoitar na Pousada do Inatel, garanto o silêncio dos montes, a gentileza e o profissionalismo do pessoal.
Finalmente, Piódão!
Repara no casario com o xisto à vista, exceto a Igreja - o monumento tem o branco de todas as purezas, como  o ar que respiras...  
A partir daqui, não te conduzo os passos, mas vai por mim dar uma palavrinha ao senhor Lourenço, que tem uma venda com o seu nome. Mas só uma palavrinha; se for com a tua cara (é que vai mesmo, sendo tu como és…) não te larga com estórias – mais de mil! - que diz ter escritas em setenta agendas! Já agora, dá um salto ao “Solar dos Pachecos” e prova um dos deliciosos licores que tens à disposição, mas aquilo trepa, se abusares, já sabes...
No regresso, sugiro que sigas em direção a Vide. É mais longe, mas compensa.
A meio caminho, encontras Chãs d’ Égua. Vai com tempo para ficares largos minutos na descoberta de vestígios de Arte Rupestre. Mais à frente, Foz d’Égua - casas, pontes, uma delas suspensa, única. Tudo parece arrumado no tempo, à exceção das estradas e caminhos por onde se chega mais rápido – estradas e caminhos que a população usou para fugir das leiras, das encostas, dos animais que parece nunca terem existido, e das pedras, das pedras com as quais se construíram casas… cobertas de pedras.
Para voltares basta seguires as “placas”, mas se trouxeres o GPS, nem delas precisas!
Convencida?