domingo, 29 de janeiro de 2017

A "medronheira" da mãe Natália

Nas feiras de artesanato degustam-se doces e pinguinhas de licores caseiros.
Certa vez, o artesão da deliciosa  aguardente de medronho, afiançou que apanhava os frutos silvestres nos "...montes do Barril"! 
- No Barril de Alva? - perguntei.
- Sim, quando se vai para Lourosa - esclareceu.
- Ah, seu "malandro", que me vai ao Calvino! - disse eu, com aparência de zangado.
Como resposta, veio o sorriso simpático e um desconto na garrafa de "sete e meio" do precioso líquido... 
Talvez pelas características do solo, o medronheiro bravo nasce e cresce em determinadas zonas e em áreas reduzidas. O Calvino é um desses espaços bem definidos: mato, pinhal e ...medronheiros. É aí que a minha família possui um extenso terreno. 
Há mais de vinte anos, num "cofre forte",  guardo reservas da minha aguardente favorita, fruto do trabalho e saber da mãe Natália que, se fosse viva, no próximo dia 1 de fevereiro  seria uma "jovem" com 91 primaveras.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Já se vai embora?

A tia Deolinda era  senhora de gentileza sublime. Tinha sentido de humor e até os queixumes sobre a sua avançada idade vinham envolvidos em sorrisos. 
Alegre e divertida na mocidade, por razões que nunca questionei, não chegou a constituir família.
Durante os anos em que privámos, sobretudo durante as visitas de cortesia, recebia com requinte: chá, café e bolinhos servidos em louça ”de marca”, toalhas bordadas à mão, mas o melhor de tudo eram as conversas sobre as suas memórias…
Não sendo senhora de frequência diária, sempre que podia assistia à Missa. Um dia, contava a tia Deolinda, estava tão absorvida nos seus pensamentos que não deu conta que se aproximava o momento da saudação. De repente, a pessoa que estava a seu lado, cumprimentou-a com um aperto de mão e ela, sem saber muito bem que dizer, possivelmente a pensar nas despedidas, continuou, como sempre, a ser gentil e fina no trato com palavras de circunstância, enquanto mantinha a mão que lhe era estendida apertada na sua:
- Já se vai embora? Fique mais um bocadinho…
*
Editado de outra edição - 10.2011

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Tenho memórias - alimento-me delas


"Nem padre, nem doutor"

Croniqueta publicada em 2008 no "Correio da Beira Serra", 
Em janeiro de 2016, neste portal, voltei às minhas memórias  - é delas  que me alimento. 




Li no "Diário de Coimbra" de   ontem, dia 24, que a Escola Secundária José Falcão está "moribunda" !
Em 1955 chamava-se Liceu D.João III 
Deu-me pena a notícia...

Passaram anos sobre o dia em que fui desterrado para um primeiro andar de uma casa sita na rua Dr. João Jacinto, em Coimbra, com a finalidade de chegar a doutor se para tal houvesse sabedoria.
A nobreza da intenção possivelmente foi abençoada pelo arcipreste Januário, pastor das almas da freguesia; porém, nem ele nem a minha família tiveram o cuidado de conhecer os meus anseios, coisa pouca, devo acrescentar: queria ser padre para entoar a imperceptível ladainha da missa ao domingo e usar uma “saia” negra como o prior.
Cá por casa tiraram-me daí o sentido com o argumento de que os padres não podiam casar e então, para não ter de inventar sobrinhas ou primas afastadas, o melhor era ser doutor de qualquer coisa e depois se veria com quem partilhar o aconchego da família oficial que havia de ter…
Coimbra e o Liceu D. João III seriam, pois, o destino da criança que eu era. E lá fui, com medos e vergonhas a fazerem mossa na imatura e periclitante personalidade. Fui, mas regressei no fim do ano letivo, vergado a um chumbo de dois “noves”, escrito a vermelho na pauta.
No ano seguinte, havia duas opções: o colégio de Oliveira, afamado, ou o de Arganil, que não lhe ficava atrás nos resultados académicos. Escolheram por mim: Arganil – sempre havia carreira de manhã e à tarde, e ficava sob a alçada da família, que continuava a insistir no “doutor de qualquer coisa” - padre é que nem pensar!
As voltas que dei na vida afastaram-me, definitivamente, de todas as vontades e desejos.
Mais tarde, os ares de Abril trouxeram-me de regresso “à terra”, deixando para trás, contrariado, um pedaço de África, como se tivesse arrancado à força o sonho de ser doutor – ou padre! - e voltei a Oliveira do Hospital a tempo de conhecer gente que, se a roda da fortuna tivesse girado noutro sentido, bem poderiam ter sido meus condiscípulos no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. Agora ouço relatos de peripécias inarráveis em letra de forma, conheço estórias de sucesso, e sei da saudade com que alguns desses amigos recordam os tempos do “Brás”.
Tarde no tempo, continuo assim, “ nem padre nem doutor” de qualquer coisa – continuo aprendiz pela “leitura do conhecimento” de mestres como Fernando Vale ou João Soares ( de Oliveira de Hospital, não o “outro”…).
Infelizmente, os mestres partiram para o Oriente Eterno...


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"Cinderelas"



Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. Se ouço um fado de Coimbra – um que seja - tenho saudade das serenatas que, durante um ano letivo, me libertavam do sono, noite após noite, porque tive a sorte de morar num apartamento paredes-meias com uma "república" feminina – era por elas, as residentes do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração/ louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas que o Carlos Paião havia de imortalizar anos mais tarde.
Algumas pessoas, como o Paião, deviam ser eternas, não pelas memórias que guardamos de si, mas “vivinhas da silva”, em carne e osso, para podermos, nós e as gerações seguintes, usufruir do seu talento.

(Imagem surrrupiada da net,com a devida vénia...)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"Principes" ao sol

Os "rapazes" cá de casa ficaram confusos quando lhes indiquei uma nova cama na marquise, onde não falta um cobertor, dos fofinhos. Os olhares,  admirados com tamanha simpatia,  subiam do "berço"  às minhas mãos, o "tarzan" ronronava, o "saguin" nem por isso; por fim decidiram testar   o cobertor, dos fofinhos, e deram-se por satisfeitos - mentirinha minha, confesso: do que as "crianças" gostam, mal a noite se põe,  é do quentinho  da lareira, como se o sol adormecesse  por ali. Durante o dia, ou  o parque multiusos do quintal ou a mesinha estrategicamente colocada junto à janela da sala  - aí, sim, havendo sol, fica quentinho até tarde...
A jarra em cobre é que paga, volta não volta vem parar ao chão.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

O amigo alentejano

RiTuAL -  memórias 28.01.09

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(...) Não somos um povo alegre, mesmo no Carnaval “abrasileirado”, que está por dias, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com e no fim…), de sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. Agora perdi-o de vista, não aparece nas tertúlias que por hábito frequentávamos – o frio da noite leva a “malta” da ESTGOH a recolher cedo (tem dias…) e o alentejano, possivelmente, está em estágio… para os exames! É bom de ver que este amigo é estudante do ensino superior e já me garantiu que há-de voltar para terras de Amareleja com o “canudo” na mão – não duvido que o faça!
O jeitinho para actor é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional (...) .

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

"Memórias" - Gabriel Garcia Márquez

RiTuAL -  memórias 03.03.07

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Comprei as "Memórias das minhas putas tristes", escritas pelo Nobel da Literatura colombiano.
Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".
Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior"...
"(... ) Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza".
- Palavra do Mestre.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Cara de sol

 
                               Neste domingo
                               a manhã tem cara  de  sol,
                               talvez por ser domingo ...

sábado, 7 de janeiro de 2017

... E o telefone mesmo à mão!

RiTuAL - memórias 12.12.05

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Volto à nostalgia para situar um ponto no Índico: Moçambique!
Foi naquele país encantado por deuses de múliplas facetas estéticas que me descobri como homem; cresci e quase completava determinado cíclo da minha existência quando valores mais altos se levantaram e retornei, em boa companhia (fomos milhares!), à casa onde nasci neste ponto da Europa, longe do Atlântico que levaria saudades à Baía do Espírito Santo em barquinhos de papel,  fosse eu Pedro na lenda da Quinta das Lágrimas e teria chamado à minha cidade Inês! Mesmo assim, continua rainha dos meus sentimentos, sonhos e ideais...
Na falta de ondas e marés, sem correntes de feição, recorro à ciência deste tempo para estar mais perto da minha gente, e ouço os sons que chegam do outro lado do mundo, aqui mesmo: basta um "click" e chego a casa!
No serão da última noite, tive companhia de elevado grau e qualidade - do locutor de serviço ao homem da técnica, de Villaret a Manuel Alegre, de Pedro Abrunhosa à "ELisa Gomara Saia", interpretado por voz genuína, sem trejeitos.
...E o telefone mesmo aqui à mão!
Num impulso, marco um número.Espero dois, três segundos:
- Bom dia, fala da Rádio Moçambique.
... Eram quatro da madrugada.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O senhor Álvaro

RiTuAL - memórias 21.01.12

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O senhor Álvaro, delicado no gosto, escolheu o pastel de Belém para afirmar sem pompa o seu (dele) contributo para o enriquecimento do país pela via do pastel. De Ministro pouco visto, num ápice popularizou a sua imagem, não por obra de vulto, mas pela ideia luminosa de transformar a doce iguaria num símbolo nacional, capaz de ombrear fora de portas com o vinho do Porto…
O senhor Álvaro foi sincero nas palavras quando sugeriu o pastel para embaixador do que de melhor (e mais doce!) se produz por cá. Desconheço se existe confraria que represente a especialidade nos altos graus da doçaria; se estiver constituída, o senhor Álvaro deve ser entronizado num dos próximos capítulos…
O senhor Álvaro, não tarda, vai ter seguidores na ideia; depois do pastel, alguns doces conventuais devem estar à espreita de outro Ministro com ideias doces e preocupado com a situação económica do país, embora esteja em crer que o mais certo é surgir no horizonte uma ou outra confraria com sugestão mais robusta – da Chanfana ao Bucho, sem esquecer o Bacalhau, existem “mais do que muitas” associações constituídas por gente de bons costumes, os “confrades”, que se manifestam sem segredos e vestem fardas de estilo.
Se formos a votos, decido-me, pela “Feijoada à Transmontana” !
O senhor Álvaro, um dia, vai ter direito a estátua junto aos Jerónimos, em Belém, e o governo que estiver em funções irá decretar “O Dia do Pastel”, 12 de Janeiro, feriado nacional, mesmo que seja necessário desistir de outra data histórica…

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A "roda" do Alva

Na serra mais alta de Portugal continental nasce num murmúrio o Rio Alva, que corre devagar e manso a caminho da foz no Rio Mondego, em Porto da Raiva, perto de Penacova, às portas de Coimbra.
O fio de água transforma-se em ribeiro quase à nascente, mas à medida que recebe suores de outras fontes, depressa se assume como rio pujante de vida, sem quedas ou desvios - os que existem são obra do Homem, que desde sempre usou o caudal para seu benefício, dos moinhos de moagem às “rodas de alcatruzes” que, nos estios,durante semanas, noite e dia, despejavam cântaros de seiva nas levadas e estas, serpenteando, alimentavam os milheirais e outras culturas de ocasião.
O trabalho insano das “rodas” proporcionava imagens muito belas e sons característicos dos movimentos em tono dos eixos. Aqui e além, nos tempos de agora, ainda se vislumbram engenhos do estilo, com a funcionalidade de sempre nuns casos, noutros como mera peça decorativa que regala a vista.
O Rio Alva coloca os seus serviços ao dispor das mini – hídricas, a contento de uns e desagrado de outros…
No entanto, o aproveitamento das suas águas e das várias qualidades de peixes que aí encontram o seu habitat natural é, desde sempre, o maior contributo que presta ao Homem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Ano novo na cor da paz 

Carlos Drummond de Andrade


Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido).

Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior).

Novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
Nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.