terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Uma menina chamada Laura

Sendo real, a estória tem tratamento de encantar…

Era uma vez uma menina chamada Laura, carinha de porcelana, cabelo aos caracóis e olhitos ladinos. 
Menina, sim, mas veloz nas palavras e nos passinhos miúdos, a Laura (talvez, Laurinha para os familiares e amigos…) gosta muito do Acácio - espécie de tio de quem todas as crianças gostam. O Acácio, “tio”, é assim, sempre foi assim - é por isso que está nesta estória, mas não faz pate dela.
Um dia, uma amiga da mãe da Laura, simpática e gentil, diz à menina com carinha de porcelana, cabelo aos caracóis e olhitos ladinos:
- Sabes, tens um cabelo muito bonito! Se eu pudesse tinha um cabelo como o teu… 
A Laura, menina, sim, mas rápida no pensamento, sorriu, arrancou um dos seus cabelos e ofereceu à Ivone, amiga da sua mãe. 
… Disse a Ivone que a Laura a " (…) deixou com lágrimas nos olhos"!

-Ilustração  de “A menina do Mar” de Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 25 de fevereiro de 2017

"Princesa bailarina"

- Nônô -

A bailarina

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Carla...



movimenta-se pelos corredores do hospital  leve como uma pluma. 
A Carla espalha sorrisos e  palavras amigas, de conforto. 
A Carla, além dos sorrisos, das palavras 
e da leveza de movimentos, 
toca-nos a alma com as pontas dos dedos 
- massaja-nos o coração. 
A Carla assume-se de corpo inteiro  à  arte sublime de cuidar do seu semelhante pelo gosto de gostar da sua profissão de enfermeira...
... e nós ficamos assim, sem palavras no  momento de dizer obrigado.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

"Branco é, galinha o põe" - a curva da vida

Este texto  foi partilhado por um amigo que muito estimo, Luís Moura. Agora, faço dele "coisa minha" - cá por coisas, coisas minhas, de  quem "se/tenta"  na curva da vida.
Ao que presumo,  é de autor desconhecido, o que não invalida  que confirme em absoluto esta  "verdade de La palice". 
"Branco é, galinha o põe" - para citar um provérbio "tuga"  -   fiquemos por aqui, pelas palavras...
- Há  lá coisa mais "perfeita" ?



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Fiança



Entra-me o sol a rir pela janela.
Traz notícias bem-vindas lá de fora.
Diz que não há sombra agora
No mundo que me espera e que receio.
Que posso, confiado,
Num pégaso sem freio,
Ir cumprir mais um dia do meu fado.
*
Miguel Torga

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Afetos

Brindaram-me  com dois bombons,  um sorriso  e frase curta :
- Hoje é dia dos afetos.
Retribuí com "... uma lágrima ao canto do olho (...)" e disse:
- Obrigado...
- Pelos bombons.
- Pelo sorriso.
- Pela frase do tamanho do Universo!

domingo, 12 de fevereiro de 2017

"Portas do Açor"

A tarde de ontem, sábado, estava fria e cinzenta, nada convidativa a passeios pela serra.
No largo da Ponte, no Barril de Alva, contavam-se pelos dedos de uma mão os mirones da paisagem e conversa de ocasião - gasta-se o tempo a gosto, pelo gosto do convívio.
Entro na conversa sem o ritmo da dita. Digo que o tempo está desagradável (como se ninguém tivesse dado conta) - o rio não transborda, é certo, digo eu, mas a bica do pipo anuncia a  força da nascente (como se ninguém tivesse dado conta, enfim…).
Num instante aproxima-se um jeep e estaciona, outro, e outro - trinta, ou mais!
Ausento-me da conversa de ocasião e questiono um dos ocupantes da primeira viatura sobre o passeio. Que vêm de longe, do norte, centro e sul – diz, simpático. Olhe, fale ali com o “chefe”, ele é que organiza estas passeatas…
O “chefe” é o responsável por um clube (lamento, não fixei o nome); informa que o dia começou em Arganil, andaram pela serra, almoçaram em Fajão, e  a concentração  de viaturas “4X4” termina ali mesmo, no largo da Ponte, mas não é obra do acaso...
Diz o “chefe”:
- Organizamos passeios destes, de vez em quando, mas antes  venho fazer o reconhecimento dos sítios a  visitar. Passei por aqui num dia em que havia uma “feira  dos estrangeiros”, achei interessante, gostei do movimento, do local e das pessoas com quem falei. A terra também me pareceu simpática, por isso  decidimos que  este  seria o melhor sítio para terminarmos o convívio - agora, cada um segue o seu destino, uns para lisboa, outros para o Porto, Braga…
Um dos convivas pergunta onde pode  comprar queijo da serra, do bom, claro. Indico-lhe o “Vira Milho”….
Quem segue para sul adianta despedidas.
- Boa viagem, digo eu, e até à próxima.
- Sim, sim,  esta região é muito bonita, vou voltar.
Diz o “chefe”:
- Claro, havemos de voltar, não é a primeira vez que andamos por aqui, mas é sempre agradável conhecer outros lugares.
Digo-lhe que, “para a próxima”, nada melhor do que  entrar por “esta Porta  do Açor”, ou pela outra "Porta do Açor", Coja – conhecem? Ainda não, andámos lá por cima, pela serra – fica para outra ocasião.
Prolongou-se a conversa com assunto a condizer com  a próxima ocasião...


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Sonhos

Pode sonhar-se acordado ou a dormir. Se os primeiros "comandam a vida", os outros, pelo contrário - "descomandam"... quando chegam travestidos de pesadelos.
Dos tipos de sonhos que sei de mim, na imaginação do que mais quero, escolho sonhar acordado. Dos outros, não me é permitido o livre arbitrio - se pudesse, ausentava-os em definitivo. Sempre tinha sono capaz, descansado,,,

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confraria das palavras

De forma involuntária (?), nas últimas croniquetas, tenho dito coisas sobre a (minha) saudade de um tempo, o que não abona grande coisa, ou mesmo nada, a disponibilidade da  inspiração para outras estórias, antes e depois desse período...
Agora fui "desafiado" pela Helena para uma diversão facebookiana: 
- (...) Faz um comentário usando uma única palavra sobre como nos conhecemos!
E eu escrevi: PALAVRAS! 
Na verdade, ao longo de vários anos, têm sido as palavras que mantêm viva uma amizade impar. Eu e a Helena Maria usamos a "mesma linguagem" sobre a estética do belo, o que permite ausentar o "espírito de eremita" em que me trasnformei - pelo querer da minha vontade e não por imposição de terceiros...
Ao joguinho de palavras, pé ante pé, juntou-se a gentil Lyla Seixas com outras palavras, nem minhas nem suas, mas nossas, de todos - de quem as quiser no modo de se dar ao próximo. 
Não sendo de "ninguém", as palavras usadas pela Lyla têm dono: Dostoievski!
- A beleza salvará o mundo !
Bem-vinda, Lyla,  à "confraria das palavras" - destas palavras, "porto seguro" de quem veste  fatiota de bons costumes.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Arrepios no corpo, dentro e fora dele

Certo dia entrei num barco grande, enorme, que cheirava a novo, não por ter saído da fábrica nas vésperas, mas pelas tintas usadas para esconder as rugas da idade. Nesse tempo, outros barcos grandes, enormes, eram velozes a cruzar a linha do Equador; este, que me calhou em sorte, não, molengão que só visto, com o pormenor do cheiro a tinta provocar náuseas e vómitos aos passageiros, eu incluído - eu, criança, sem hábitos de viajante, exceto as idas às vilas das redondezas em dia de feira, e por uma vez à Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo, a Almada para visitar parte da família  e o mar, grande, enorme, inimaginável, e a Coimbra, grande, enorme, cidade que me foi destinada para cumprir os desígnios da família: um dia, talvez um dia, seria doutor ….
O Portugal que me foi dado conhecer na escola - lia nos livros - alongava-se para lá dos oceanos. Longe, muito longe daqui, da minha aldeia, havia mais Portugal - “outro Portugal” - com outras gentes, falas e costumes.
Eu, a “caminhar para doutor”, com “muito bom” nos exercícios da nossa História, acreditava nesse Portugal  - ”tratava por tu” Vasco da Gama, Cabral, Diogo Cão e tantos outros almirantes dos setes mares.
A família decidiu, estava decidido: o futuro passaria por Moçambique, onde o avô Pereira procurava fortuna.
O “Quanza”, pintado de fresco, levou uma eternidade, mas chegou, ronceiro, à Baia do Espírito Santo e ao cais Gorjão. Finalmente, Lourenço Marques!
A primeira vez que passei pela praça da Câmara Municipal, depois de ler o que estava gravado no passeio ("AQUI É PORTUGAL"), tremi - todo o meu corpo tremeu. E sempre assim foi, arrepios no corpo, dentro e fora dele, emoções que não se explicam - nem agora nem antes.
- Portugal era mesmo grande, enorme - estava tudo escrito nos meus livros da primária! E do liceu!
- “Era”? 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O "jogo das cartas"

Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Sendo certo que a felicidade chega em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera… bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
- “Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante...
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, bem melhor do que somar fantasmas. 
Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional.
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas
Aconselho vivamente a leitura da sua “ A última aula”.