domingo, 7 de dezembro de 2014

(...) estupidamente jovem de sonhos a superlotar uma "valise de carton"...

O sol que entra filtrado pela janela da sala com quarenta e dois metros quadrados de espaço útil é insuficiente para me aquecer, sentado no sofá com anos de uso mas com os pés assentes no granito do chão da lareira; quando chega o frio gelado da Estrela, ela, a lareira, renasce das cinzas depois do milagre da chama de um fósforo em comunhão  com  uma acendalha.
Como sempre, em horas do mesmo estilo e feitio, pela manhã, ouço  rádio - não uma estação qualquer, as minhas preferências vão por inteiro para a Smooth FM, que reservo em tudo quanto é aparelho  de companhia nos silêncios das  ausências físicas de filhos e netos. Se me apetece, coloco um LP de vinil no gira discos e transporto o pensamento para tempos de glória, quando se é estupidamente jovem de sonhos a superlotar  uma "valise de carton", que é o local próprio para guardar  os sonhos em qualquer idade - eu que o diga: amante do "tango", por ser tosco no ritmo, fiquei-me pelo "baile mandado"... 
Levanto-me do sofá, curvo-me para chegar à prateleira mais baixa da estante  e com a mão direita retiro à sorte, não um LP, mas o "Single" "O Tango dos Barbudos"! Coincidência... 
-  Agora vou  rodopiar na cadência da dança - sempre movimento as pernas abraçado à nostalgia de uma "matinée"  nos "Velhos Colonos", de preferência  ao som dos "Night Stars" , "Renato Silva", "Corsários", ou  dos "I Cinque di Roma" numa "soirée" do Hotel Polana...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Posso Ajudar?

Repete-se  a croniqueta e acrescento estória com final  semelhante e outra protagonista,  como se fosse um "tango" ( ou outra dança...) com dedicatória  anunciada no silêncio das meias palavras. 
Da Mariana, conheci-lhe o sorriso;  do "tango", apenas palavras - das que alimentam o espírito...

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que conheci Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante das obras menos procuradas. E ela vinha, mesmo depois de se ter apercebido da marosca, com um sorriso malandro.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a ajuda necessária não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas. Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, do single musical em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem, eu teria saído do canto da minha timidez e declarava-me... "apaixonado"!
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar?
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

"Arte de Furtar"

Veio parar-me às mãos uma edição gráfica da Gulbenkian, onde se podem ler alguns textos escritos no Século XVII. Um deles, sem nome do autor, intitula-se a “ Arte de Furtar”.

Ficam os títulos que encimam alguns capítulos  "...da graça literária..."(1), para merecimento da atenção do leitor:

“Como para furtar há arte, que é ciência verdadeira”; 
“Como a arte de furtar é muito nobre”; 
“Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões”;
“Como se furta a título de benefício”, etc.

“… Assim se prova que há arte de furtar; e que esta seja ciência verdadeira é muito mais fácil de provar, ainda que não tenha escola pública, nem doutores graduados que a ensinem em universidade, como têm as outras ciências...” – anotou o escrevinhador, ilustre desconhecido.

... O livrinho parece ter saído agora do prelo...
___

(1) Sobre o eventual autor da obra e outros apontamentos, ler:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_de_Furtar

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

As últimas telhas da CARRIÇA




A CARRIÇA tinha a morte anunciada!
Hoje foi o dia - o derradeiro dia para imaginar  a última viagem das telhas a caminho dos fornos, agora adormecidas nos leitos. Quem tivesse a carteira mais recheada, podia chamar-lhes suas. Preço base para o lote: oitocentos euros !
- Quem dá mais... quem dá mais? , perguntava  o leiloeiro obstinado.
Subiram as ofertas, o negócio fez-se por quatro mil e duzentos euros, "...para aquele senhor com a chapa número "tal"...".
Mais lotes, peças individuais, mobiliário de escritório, pá carregadeira, empilhador, caterpillars, laboratório,  linhas de produção...
- Duas linhas de produção por setecentos mil euros. Quem oferece mais?
Plateia muda, burburinho na sala...

Antigos funcionários da CARRIÇA estão perplexos com os silêncios - um, de cabeça baixa, por certo negava as evidências do momento que lhe entristecia a alma...
Sem ofertas, o leiloeiro cumpre a lei e pede aos interessados que se pronunciem.
Agora sim, era chegada a hora do "banquete". 
Animaram-se as vozes - a mais sonante ficou-se por menos de metade da base  da proposta inicial.
- Vendidas àquele senhor, com a placa "x",  por trezentos e dez mil euros!
A CARRIÇA tinha a morte anunciada! Hoje foi o"último suspiro"...
Antes, durante e depois do leilão do património da "CARRIÇA", Gabriel García Márquez, escritor colombiano, Nobel da Literatura em 1982, permaneceu vivo nas memórias das minhas leituras - não pelo best seller "Cem Anos de Solidão" ou "Memórias de Minhas Putas Tristes", por exemplo, mas pelo título com que batizou uma das suas laureadas obras: "Crónica de uma Morte Anunciada".
 Surrupio a ideia, não o conteúdo da estória...
 - "Tenho uma tristeza profunda pelo esbanjamento deste património (...), vendido ao desbarato..." . O  funcionário com "...  dezenas de anos de casa", meneou a cabeça, desabafou mágoas   e virou-me as costas. Por certo nem reparou no sujeito da chapa número "tal" quando retirou um "braçado" de notas do bolso das calças ... 

domingo, 31 de agosto de 2014

E o rio, senhores?


"Na serra mais alta de Portugal continental nasce num murmúrio o Rio Alva, que corre devagar e manso a caminho da foz no Rio Mondego, em Porto da Raiva, perto de Penacova, às portas de Coimbra.
O fio de água transforma-se em ribeiro quase à nascente, mas à medida que recebe suores de outras fontes, depressa se assume como rio pujante de vida, sem quedas ou desvios - os que existem são obra do Homem, que desde sempre usou o caudal para seu benefício, dos moinhos de moagem às “rodas de alcatruzes” que, nos estios, durante semanas, noite e dia, despejavam cântaros de seiva nas levadas e estas, serpenteando, alimentavam os milheirais e outras culturas de ocasião...".

Tem anos este texto sintetizado sobre o "meu" rio - rio de todos nós, afinal, porque não desejo assenhorear-me dele, como coisa minha.

Ontem, em Côja, tarde fora, de forma pública  e a céu aberto para levar (mais) gente à Praça, a iniciativa  para "turistificar" "Côja e a Região"  foi a debate. Debate suave, acrescento eu, a mando das regras do saber ouvir mais e melhor os ensinamentos de três engenheiros e dois doutores, segundo o  grau e qualidade dos ditos, que se mostraram à altura do raro acontecimento vespertino.
Lindo de ouvir, para regalo dos interessados em matérias específicas, "turistificou-se" a marca  que há-de ser patenteada com a intenção de divulgar  e promover "Côja e a Região". Assim seja, tão depressa quanto possível!
Na esperança de ouvir meia dúzia de palavrinhas sobre o "meu" rio - sobre o rio de todos nós! - mantive-me atento,  mas nada foi dito sobre a limpeza das margens do rio de todos nós  e, mais grave ainda, a ausência de  debate sobre a diminuição do caudal do Alva  no verão, ao que se diz, da responsabilidade das mini hídricas existentes a montante de Côja...
Estivesse eu mais falador e havia conversa animada, mas não, não estava nos "meus dias" - mantenho o assunto agendado para quando for chamado a depor  ( se for!) sobre a "galinha dos ovos de ouro"...
-  Com  "pouco rio", nem a roda de alcatruzes cumpre a sua missão!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Sempre "fixe", giro e vivaço

O Renato é este jovem  "fixe, giro e vivaço" com quem me cruzei um dia em Oliveira do Hospital, na Livraria Apolo. Era estudante, mais tarde  seria engenheiro, confessou...
 Nasceu em Côja.
- Ai sim? - disse eu, alegre de mim  para mim, por ser conterrâneo de tão garboso jovem, rodeado de "miúdas", colegas da  Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Oliveira do Hospital.... 
- Pertences a que família? , quis saber...
- Sou filho do Orlando.
- ... Castanheira?...
- Sim!
- Ohhh, sou amigo do teu pai há imensos anos, desde o tempo do conjunto musical  "pop king's". Grandes farras, Renato, podes crer...
Sorrimos ambos, partilhei confidências...
A conversa pode não ter sido textualmente  assim, mas andou perto - tão perto que me recordo de certos pormenores  sobre uma "tal miúda", cliente do RiTuAl Bar do meu tempo...
Depois, em Côja, eu e o Orlando falámos várias vezes sobre a vida académica do Renato...
Continuei a encontrar o meu jovem amigo, sempre "fixe", giro e vivaço, no bar  da Livraria Apolo, local de eleição da "malta" da ESTGOH, ou em Côja, na Boutique da Tuxa. Foi   aí que soube da sua intenção de seguir a carreira militar...
Às vezes, quando rodeado amigos,  não dava pela presença do Renato e era ele, sorridente  e simpático, que tomava a iniciativa do cumprimento - sempre "fixe", giro e vivaço!
Hoje, a meio da tarde, eu e o pai, chegámos ao mesmo tempo à ponte velha de Côja; parámos as viaturas, demos prioridade  a quem vinha em sentido contrário, o Orlando saudou-me num gesto largo e seguiu viagem, muito, muito  apressado...




terça-feira, 8 de julho de 2014

Dois euros e dez


 "...subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito"!






Hoje, como estava  sem pão, decidi  comprar uma broa de milho (tenho sardinhas para o almoço de amanhã, e a broa faz parte da ementa...). Para que conste: da minha casa à padaria mais próxima  a distância é "curta" : três quilómetros!
Com a viagem a meio,  cruzo-me com um jovem casal estrangeiro que fazia o mesmo percurso a pé no sentido inverso ao meu; a senhora  conduzia  um carrinho de bébé e o homem seguia alguns metros adiante.
- Com este tempo quente, uma caminhada de  três quilómetros  não é nada agradável - comentei com os meus botões...
Ocupei-me cerca de uma hora com outros afazeres e, à volta, fui à padaria:
- Uma broa e um pão de mistura, se faz favor - pedi à balconista,
- Quanto lhe devo? - perguntei.
- Dois euros e dez - respondeu a balconista.
Retirei da carteira o dinheiro certo, paguei, e fiz-me ao caminho.
Antes de regressar a casa, decidi ir ao Urtigal - espécie de placebo e refúgio de múltiplos sons com que descanso o espírito sempre que anda inquieto; da paisagem reservo  todos os olhares e fico cheio de  belezas infinitas ...
Quase duas horas depois, muito próximo do "paraíso", encontro a mesma família. Perguntei  em português se iam para o Urtigal - que sim,  respondeu o homem em espanhol e assim nos entendemos.
Ofereci boleia: a mãe subiu com o   filho para o  banco de trás,  o marido para o da frente.
Poucos metros adiante caminhavam duas jovens  conhecidas . Como de costume, em tempo de férias, a meio da tarde, os estudantes têm encontro marcado no Urtigal. Nova paragem e mais duas "passageiras"!
Chegados ao destino, os ocupantes ocasionais agradeceram a boleia, eu segui o meu caminho solitário, subi a margem até à muralha que insiste em prender o rio sem  resultados  visíveis - bem pelo contrário: acelera as águas que se despenham  em espuma no leito! -  e voltei à minha 4X4.
Estacionei a viatura à porta de casa, procurei por "tudo quanto é sítio" , mas nem o cheiro agradável do pão a sair do forno pairava no ar...
Retornei à padaria, repeti a encomenda pelo mesmo preço de dois euros e dez, e contei a estória à balconista.
- Deixe lá, sempre matou a fome a alguém - disse, sorrindo,  a simpática funcionária da "Boutique da Tuxa".

domingo, 11 de maio de 2014

... Como se estivesse em São Carlos




No âmbito das comemorações do Foral Manuelino atribuído a Côja, em 1514, anunciava-se o trio Prestige "...que alia o piano de Tito Tavares e o violino de Mário Siegle à voz lírica de Carla Bernardino, (que) prima pela beleza das interpretações musicais e pela dedicação com que encara a música clássica, tornando-a aprazível aos ouvidos de quem ouve".
Quando nos deixamos transportar nas asas das melodias durante uma "viagem de ida e volta", ficamos com a sensação de que nos roubam minutos ao tempo estipulado para o serão. Começa-se na expectativa do reportório, termina-se nos encores, que foram dois - sinal de agrado, amplamente manifestado pelo público. Foi assim esta noite na Igreja Matriz de Côja...
Por mim,  "estive no Teatro Nacional de São Carlos"! !

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Amigo de Einstein

Apresso-me para o serão quando acontece alguma coisa do meu agrado num dos canais da televisão - pode ser um jogo de futebol, um concerto musical,  uma fita de cinema ou as conversas do Professor Marcelo. Novelas, não, obrigado - vejo teatro no canal memória, em memória das minha andanças pelos bastidores de algumas salas de Lisboa, e ainda em memória dos tempos em que fui "aprendiz de artista" na minha cidade de Lourenço Marques.
Se me apresso, quero o tempo corrido, com os ponteiros do relógio a trote. Em bom rigor, o tempo escorre pela ampulheta dos segundos em velocidade de cruzeiro - não me  adianto ( nem atraso!) no tempo!
"...Para Einstein, o tempo não existe de fato, ou melhor, não existe um “Tempo real, ou um tempo absoluto”, como afirmava Newton".
Pronto, o "tempo não existe"! Tenho uma sorte "bestial" por  ser "amigo de Einstein"...


domingo, 30 de março de 2014

A dona Irene partiu

É domingo e ainda não alterei a hora - continuo nas 10 e 40.
Pela minha hora,  10 e 40, traço planos para o almoço - carne ou peixe, mas como me esqueci  de descongelar qualquer coisa para grelhar, o melhor é olhar as reservas enlatadas.
...A Smooth FM faz-me companhia, como em todas as manhãs, muito antes das 10 e 40.
A Ivânia acaba de telefonar.
- Olá senhora/menina  engenheira - brinco -  bom dia! Estás bem, filhota? E o João? ( O João é o marido da Ivânia, que entrou para a família pela porta grande - não há ninguém que não goste dele, incluindo a mãe Natália; as patilhas do João é que não eram muito do seu agrado...).
Por minutos, continuou o diálogo; falei do tempo frio desta manhã - se calhar vou acender a lareira, disse eu. A minha filha concordou:
- Aqui  (nas Caldas da Rainha)  também está frio, o  tempo está cinzento..
- Olha pai, estou a ligar para dizer que a avó Irene morreu esta noite!
A avó Irene, minha sogra,   foi uma senhora de coração enorme - maior do que o país que abraçámos como nosso: Moçambique. Foi aí, em Moçambique, na noite passada, que a dona Irene Fonseca fechou os olhos para sempre. Tinha oitenta e mais uns anos...
Agora, que passa das 11 ( pelo meu relógio...), enquanto escrevo saltam vivas as memórias  de um tempo em que a dona Irene era a matriarca da família, sempre apaziguadora de pequenas divergências.
Senhora com mãos de oiro na arte  de costurar lindos vestidos de noiva ou um enxoval inteiro para a criança que ia a batizar -  tivesse ela a cor que tivesse! - estou em crer que vai ter muitos afilhados no funeral...
A minha sogra, dona Irene, juntou-se à minha mãe Natália no Oriente eterno.
Ai... as recordações que tenho de ambas!...
Vou acrescentar mais uma hora aos ponteiros dos relógios.


sexta-feira, 14 de março de 2014

A jogar "em casa"


"A Bola" - Imagem  surripiada  esta manhã

Andar por cá, enquanto tenho vida para viver, é um gosto emocional sem palavras para o definir de forma precisa e concreta. Gosto, e pronto...

Este viajar por dentro de mim é nunca estar só - de lembrança em lembrança, tanto posso "estar" num ponto de Moçambique, dos que aprendi a amar, ou em Toronto, no Canadá. por terras de França ou da Suiça, da Holanda, Inglaterra, Espanha...

Nesta Europa onde nasci, encontrei compatriotas amantes da Pátria, sem olhar  às cores clubistas - assistir a um jogo de futebol na Alemanha com o Benfica a "jogar em casa", é como se estivesse na Luz!

O serão da noite passada trouxe à minha  memória  a imagem única de um desses dias.

E como o Benfica ganhou, adormeci assim, "feliz da vida"...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Esplanada do Café Central




Há cinquenta e sete anos, num dia qualquer de março, ao começo da noite, assisti a uma das primeiras emissões da RTP através de um aparelho estrategicamente colocado na esplanada do Café Central, em Almada. Lembro-me das imagens a preto e branco da Orquestra Ferrer Trindade e da imensa gente que lotava a esplanada. Depois, sempre que estava de regresso a casa, no Barril de Alva, ia ver televisão à casa do senhor Abílio Figueiredo, ou do senhor Abílio Quaresma…

Há cinquenta e sete anos, deram-me a conhecer um mundo novo - sou desse tempo novo e dos tempos que se seguiram, sempre novos, como o aniversário da RTP ao serão com gente nova e os outros, sempre novos nas minhas lembranças…

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Gestos sem palavras

(...)
O "Scala", além de cinema, de vez em quando, apresentava artistas de renome mundial, como Yves Montand, Marcel Marceau...
- Que sorte que eu tive nesse tempo!

sábado, 11 de janeiro de 2014

À MESA COM O "CUCO RAMBOIA" -"Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos"



Em 1963 vivia em Lourenço Marques, Moçambique.
Com a idade de 18 anos aproximei-me da obra literária de Alves Redol durante uma visita à Livrara Académica com o fito de ganhar o sorriso inteiro da empregada, de nome Mariana, e nada mais do que isso. Infelizmente, apesar de várias  tentativas nunca passou a fronteira do institucional “olá”, seguido da gentileza de frases feitas: “…posso ajudar? …o que deseja?”.
Sem a coragem de outras falas, eu pedia coisas simples: lápis ou borrachas, papel cavalinho ou tinta-da-china; uma vez, ou outra,comprava um livro.
Devo à Mariana a descoberta de Alves Redol.
Comecei pela “Barca dos Sete Lemes”, e tempos depois, “Fanga”. Ainda em 1963, comprei “Barranco de Cegos”, mais tarde “Anúncio”, “ O Muro Branco” e “Gaibéus”.
Retornei a Portugal, Alves Redol “veio comigo”; por cá, estava ausente dos escaparates das livrarias – até um dia, quando dei de caras com “Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos” !
 Li a obra num fôlego.
 Constantino Caralinda - aliás, “Cuco Ramboia”-, mora no Freixial, ”… tem doze anos, mas não deitou muito corpo para a idade. Ainda está a tempo. Um homem cresce até ao fim da vida, se não em altura, pelo menos em obras e ambições…” – relata Alves Redol.
Um dia, tempos atrás, o meu filho Hugo, apresentou a namorada à família: Rita Caralinda!
Vieram as palavras de ocasião, de parte a parte, e uns segundos depois pedi licença para me ausentar; quando regressei, trazia numa das mãos a obra de Alves Redol.
A Rita sorriu, perguntei se  “este” Constantino  era da família, que sim, disse, e acrescentou:
 – É o meu pai, e está vivo, felizmente!

No último Natal, eu, o Hugo e a Rita fomos jantar ao Freixial, à casa do “Cuco Ramboia”.
Para que a emoção fosse acrescida, à mesa, além de outras familiares, estava a irmã Ana Maria - também ela personagem da estória, escrita "...sem qualquer ímpeto de desforço, este contarelo, um tanto biográfico, é obra  de pura devoção" - Alves Redol.

" ...Como já sabemos, o meu amigo  Constantino é Cuco - e Cantigas também.
Todo o povo gosta dele; "é um homem pequeno", diz a gente quando o vê passar na lida; e conta-se, entre sorrisos e olhares  ( da Portela, onde moramos os dois, ao Alto, que fica junto à estrada, ou ao Rossio e às Ermidas, cá em baixo,  quando se busca a saída para Bucelas), certa conversa a que o Constantino deu andamento..."
Alves Redol

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio: Bayete, irmão!


Acordei cedo, como se fosse segunda feira. Na dúvida,confirmei no "Lumia"  - é domingo!
Já agora, pensei, vou saber das notícias do país:
- Morreu  Eusébio!
Se havia vontade de voltar ao sono, esqueci. Desliguei a luz, aconcheguei-me nos lençóis, e por aí fiquei, às voltas  com as minhas memórias de mufana, em Lourenço Marques, residente no bairro da Malhangalene.
Mufana sim, pontapés na bola, à fugida, junto à Praça de Touros; mais toques na bola no  campo do 1º de Maio, perto de casa, que equipava de vermelho.
Um dia descobri o melhor modo de ir para o outro lado da cidade, onde o Sport Lourenço Marques e Benfica tinha o seu campo relvado, com pista de ciclismo à volta.!
Fui,  deram-me umas botas com travessas,  calções quase brancos e uma camisola de um vermelho desbotado.A camisola, mesmo assim, tinha o símbolo da águia...
No fim do treino, pediram-me para voltar no  seguinte.
Aspirantes  à equipa de júniores, mais de sessenta!
Ao segundo dia de testes e experiências: ("jogas em  que lugar"?; "vais mas é  ali para trás, para defesa"; " em cima dele, vai lá, não passa, não passa"; "ó puto, cobre em cima, encosta-o à linha..." ) fui um dos escolhidos para  ser inscrito no clube.
Por engano, deixei de ser Ramos, e passei a ter "Santos" no nome! Coisas, miudezas, enfim - o que eu queria mesmo era jogar a  sério com a camisola do meu Benfica!
Nesse tempo já o Eusébio tinha fama.
Lembro-me de  ter assistido aos jogos da equipa brasileira Ferroviária de Araraquara  com a  seleção de Moçambique, seleção dos Naturais de Moçambique e Sporting de Lourenço Marques. O Eusébio jogou em todas as formações..
No primeiro jogo, um jogador brasileiro surpreendeu com uma finta "nunca vista": corria com a bola, quando o adversário se aproximava, fazia com que esta lhe passasse por cima!
No jogo seguinte, dias depois, o Eusébio brindou o público com jogadas semelhantes, fintas doidas, tiros fora da área...
Nesse tempo, às vezes, a equipa de júniores do meu Benfica, à noite,  ia treinar com a equipa do Sporting, no seu campo. O mais certo foi o  Eusébio ter feito de mim "gato sapato" quando, como defesa direita, procurava suster as suas cavalgadas,  a mando do treinador e com o brio que se exigia a um atleta do Benfica!...
As minhas memórias, agora, estão tão vivas e presentes, como se tudo tivesse acontecido ontem.
"Tenho" quinze, dezasseis anos...

Esta manhã, sou um dos muitos portugueses pelo nascimento,  moçambicano pelo amor à  Pátria de adoção, que deixou correr as lágrimas ao saber que...
- O Eusébio morreu!
Bayete, irmão!


sábado, 4 de janeiro de 2014

"...Mandei-lhe um cartão..."


É tempo de inverno. Prendo-me ao calor da lareira, toco nas ausências a quem quero  bem, construo atalhos pelos caminhos da saudade - fixo-me neles. A culpa é do Vitor Silva pela sua  viagem no tempo...
Volto ao "Namoro" da poesia de Viriato da Cruz, poeta angolano, como Fausto, o caminheiro da melodia.


Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
dizia ela tinha
um sorriso luminoso
tão triste e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
na fímbria do mar
Sua pele macia
era suma-uma
sua pele macias
cheirando a rosas
seus seios laranja
laranja do Loge
eu mandei-lhe essa carta
e ela disse que não
Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
'por ti sofre o meu coração'
num canto 'sim'
noutro canto 'não'
e ela o canto do 'não'
dobrou
Mandei-lhe um recado
pela Zefa do sete
pedindo e rogando
de joelhos no chão
pela Sra do Cabo,
pela Sta Efigénia
me desse a ventura
do seu namoro
e ela disse que não
Mandei à Vó Xica,
quimbanda de fama
a areia da marca
que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
bem forte e seguro
e dele nascesse
um amor como o meu
e o feitiço falhou
Andei barbado,
sujo e descalço
como um monangamba
procuraram por mim
não viu ai não viu ai
não viu Benjamim
e perdido me deram
no morro da Samba
Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sr. Januário,
mas ela lá estava
num canto a rir,
contando o meu caso
às moças mais lindas
do bairro operário
Tocaram a rumba
e dancei com ela
e num passo maluco
voamos na sala
qual uma estrela
riscando o céu
e a malta gritou
'Aí Benjamim'
Olhei-a nos olhos
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo
lá lá lá lá lá
lá lá lá lá lá
E ela disse que sim