sábado, 9 de janeiro de 2016

Cestinho de cerejas

Uma das prerrogativas de quem guarda memórias é ter saudade de qualquer coisa, de alguém, de um tempo. 
Se ouço um fado de Coimbra – um que seja! – vem a saudade das serenatas que, durante um ano letivo,  ausentaram o meu sono noites sem conta. Ao lado da casa onde morava havia uma república feminina – era por elas, as meninas  do segundo andar, que os estudantes faziam trinar as cordas das guitarras e sobressair as vozes potentes, entoando melodias românticas: eles, “perdidamente apaixonados”; elas, “…bate, bate coração / louco, louco de ilusão…”, quais Cinderelas, que o Paião havia de imortalizar anos mais tarde.
O Carlos Paião - algumas pessoas, como o Paião, deviam ser eternas, não pelas memórias que guardamos de si, mas “vivinhas da silva”, em carne e osso, para podermos usufruir do seu talento com deleite. Por exemplo: “apetece-me” ter saudade do Elvis Presley e da sua música Gospel com que enfeitei a minha juventude. O Elvis nunca deveria ter “entregue a alma ao Criador”, depois dele foi o vazio; apareceram cópias sem importância de maior, o “rei”, na verdade, era – e continua a ser – “único”!
Outra saudade: o “divino” Michael Jackson “abandonou o barco” sem um adeus! O choque foi brutal, até para mim que sou mais Elvis do que Michael, e muito mais Paião do que os outros dois. E outros da arte de cantar como Amália, Vasco Rafael, Cândida Brancaflor, que me chegam à memória de uma vez só…
Citei o Carlos Paião: “apetece-me” (também) ter saudades dele por razões que vão para além do talento do músico, poeta e intérprete: como eu, ser adepto  do Benfica!
Já se sabe que as saudades, quando arrumadas num cestinho, são como as cerejas: atrás de umas, vêm outras...
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Texto adaptado de uma croniqueta publicada em julho de 2009

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Nem padre nem doutor

Passaram anos sobre o dia em que fui desterrado para um primeiro andar de uma casa sita na rua Dr. João Jacinto, em Coimbra, com a finalidade de chegar a doutor se para tal houvesse sabedoria.
A nobreza da intenção possivelmente foi abençoada pelo arcipreste Januário, pastor das almas da freguesia; porém, nem ele nem a minha família tiveram o cuidado de conhecer os meus anseios, coisa pouca, devo acrescentar: queria ser padre para entoar a imperceptível ladainha da missa ao domingo e usar uma “saia” negra como o prior.
Cá por casa tiraram-me daí o sentido com o argumento de que os padres não podiam casar e então, para não ter de inventar sobrinhas ou primas afastadas, o melhor era ser doutor de qualquer coisa e depois se veria com quem partilhar o aconchego da família oficial que havia de ter…
Coimbra e o Liceu D. João III seriam, pois, o destino da criança que eu era. E lá fui, com medos e vergonhas a fazerem mossa na imatura e periclitante personalidade. Fui, mas regressei no fim do ano letivo, vergado a um chumbo de dois “noves”, escrito a vermelho na pauta.
No ano seguinte, havia duas opções: o colégio de Oliveira, afamado, ou o de Arganil, que não lhe ficava atrás nos resultados académicos. Escolheram por mim: Arganil –sempre havia carreira de manhã e à tarde, e ficava sob a alçada da família, que continuava a insistir no “doutor de qualquer coisa” - padre é que nem pensar!
As voltas que dei na vida afastaram-me, definitivamente, de todas as vontades e desejos.
Mais tarde, os ares de Abril trouxeram-me de regresso “à terra”, deixando para trás, contrariado, um pedaço de África, como se tivesse arrancado à força o sonho de…ser doutor – ou padre! - e voltei a Oliveira do Hospital a tempo de conhecer gente que, se a roda da fortuna tivesse girado noutro sentido, bem poderiam ter sido meus condiscípulos no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. Agora ouço relatos de peripécias inarráveis em letra de forma, conheço estórias de sucesso, e sei da saudade com que alguns desses amigos recordam os tempos do “Brás”.
Tarde no tempo, continuo assim, “ nem padre nem doutor” de qualquer coisa – continuo aprendiz pela “leitura do conhecimento” de mestres como Fernando Vale ou João Soares ( de Oliveira de Hospital, não o “outro”…).






Croniqueta publicada em 2008, agora adaptada, Fernando Vale e João Soares, os "mestres",  infelizmente, partiram para o "oriente eterno".



https://youtu.be/iiKJmBgAfFE

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Sarah Brightman - "humanamente celestial"



Li o suficiente sobre anjos  para ficar na mesma quanto às incertezas da sua existência no Olimpo, onde moram  todos os deuses Na Terra, sim, alguns vivem tão perto de mim que quase lhes toco, são palpáveis, com poesia na voz,  vibratos  "celestiais", mágicos...
A  existir o céu, Sarah  Brightman  é celestial - humanamente celestial!
Ouço vozes como as de Sarah  Brightman, Nat King Cole ou Nana Mouskouri, logo existo!


domingo, 3 de janeiro de 2016

Princesa com "bigodes"

Não é a imagem simpática da minha gata "Satori ( minha, é como quem diz: a "mãe" é a minha filha Ana Rita, mas o regresso do Minho fez com que esta e a "Banzi"  assentassem arraiais  cá em casa; quem cria e "educa" pode ser um "excelente pai", tento que assim seja, mas hoje estou de relações cortadas com a "Banzi", passou ao de leve os dentes pela minha mão, não gostei, vai daí, hoje, nada de mimos...) que atenua o desgosto   da Graça Sampaio, "picosderoseirabrava", pelo facto de  ter perdido uma das suas "meninas" de quatro patas, a "Nikita", como  relata aqui:

http://picosderoseirabrava.blogspot.pt/2016/01/da-ca-uma-tristeza.html

Partilho  a sua "dor da ausência" de um animal  muito estimado.
Passei  as festas natalícias entre Lisboa, Caldas da Rainha e Lousã, junto dos filhotes, Por sua vontade prolongava a visita, mas as "meninas" tinham ficado sós em casa, com dois andares à disposição, a vizinha vinha ver como estava tudo, mas apesar  dos cuidados mínimos,  a lareira não tinha calor, a casa é um "gelo", e  sei  como elas gostam de  aproveitar o quentinho, como agora, ambas enroscadas, cada uma na sua mantinha, no sofá.
Voltei a horas decentes e fui recebido de "braços abertos". A "Banzi" tem lugar reservado na minha cama, aos meus pés, e a "Satori", tirando o hábito de  se estender ao comprido em cima do meu peito,  tem o sono tranquilo...