sábado, 4 de fevereiro de 2017

Arrepios no corpo, dentro e fora dele

Certo dia entrei num barco grande, enorme, que cheirava a novo, não por ter saído da fábrica nas vésperas, mas pelas tintas usadas para esconder as rugas da idade. Nesse tempo, outros barcos grandes, enormes, eram velozes a cruzar a linha do Equador; este, que me calhou em sorte, não, molengão que só visto, com o pormenor do cheiro a tinta provocar náuseas e vómitos aos passageiros, eu incluído - eu, criança, sem hábitos de viajante, exceto as idas às vilas das redondezas em dia de feira, e por uma vez à Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo, a Almada para visitar parte da família  e o mar, grande, enorme, inimaginável, e a Coimbra, grande, enorme, cidade que me foi destinada para cumprir os desígnios da família: um dia, talvez um dia, seria doutor ….
O Portugal que me foi dado conhecer na escola - lia nos livros - alongava-se para lá dos oceanos. Longe, muito longe daqui, da minha aldeia, havia mais Portugal - “outro Portugal” - com outras gentes, falas e costumes.
Eu, a “caminhar para doutor”, com “muito bom” nos exercícios da nossa História, acreditava nesse Portugal  - ”tratava por tu” Vasco da Gama, Cabral, Diogo Cão e tantos outros almirantes dos setes mares.
A família decidiu, estava decidido: o futuro passaria por Moçambique, onde o avô Pereira procurava fortuna.
O “Quanza”, pintado de fresco, levou uma eternidade, mas chegou, ronceiro, à Baia do Espírito Santo e ao cais Gorjão. Finalmente, Lourenço Marques!
A primeira vez que passei pela praça da Câmara Municipal, depois de ler o que estava gravado no passeio ("AQUI É PORTUGAL"), tremi - todo o meu corpo tremeu. E sempre assim foi, arrepios no corpo, dentro e fora dele, emoções que não se explicam - nem agora nem antes.
- Portugal era mesmo grande, enorme - estava tudo escrito nos meus livros da primária! E do liceu!
- “Era”? 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

O "jogo das cartas"

Se me perguntarem se sou feliz, respondo com naturalidade: sim e não – tudo depende do momento em que a pergunta é feita.
Sendo certo que a felicidade chega em pequenas doses e pelas mais diferenciadas vias, quando menos se espera… bate à porta: “…será chuva? Será gente? Gente não é certamente e a chuva não bate assim…” – Augusto Gil.
- “Nem é vento com certeza…” mas pode ser a felicidade porque tem um “bater” suave e inebriante...
Dizer que estou “moderadamente feliz” implica assumir que, apesar de tudo, alguns pensamentos preocupantes estão adormecidos e talvez despertem, “travestidos em fantasmas”, antes do primeiro sono. Se isso acontecer, conto carneiros – dizem que é remédio santo para adormecer –, bem melhor do que somar fantasmas. 
Não podemos escolher as cartas que nos são distribuídas, a nossa liberdade reside em saber jogá-las” – Randy Pausch, professor de Ciência Computacional.
Morreu no dia 25 Julho, 2008, com 46 anos, vítima de um cancro no pâncreas
Aconselho vivamente a leitura da sua “ A última aula”. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

A "medronheira" da mãe Natália

Nas feiras de artesanato degustam-se doces e pinguinhas de licores caseiros.
Certa vez, o artesão da deliciosa  aguardente de medronho, afiançou que apanhava os frutos silvestres nos "...montes do Barril"! 
- No Barril de Alva? - perguntei.
- Sim, quando se vai para Lourosa - esclareceu.
- Ah, seu "malandro", que me vai ao Calvino! - disse eu, com aparência de zangado.
Como resposta, veio o sorriso simpático e um desconto na garrafa de "sete e meio" do precioso líquido... 
Talvez pelas características do solo, o medronheiro bravo nasce e cresce em determinadas zonas e em áreas reduzidas. O Calvino é um desses espaços bem definidos: mato, pinhal e ...medronheiros. É aí que a minha família possui um extenso terreno. 
Há mais de vinte anos, num "cofre forte",  guardo reservas da minha aguardente favorita, fruto do trabalho e saber da mãe Natália que, se fosse viva, no próximo dia 1 de fevereiro  seria uma "jovem" com 91 primaveras.